quinta-feira, 8 de março de 2012

[oceano]

[27 de Julho de 2008]

(Numa noite comum, deita-se e cobre-se)
Desprende das coisas inertes do mundo
Mergulha sem medo num sono profundo
Desperta pra sempre no topo do monte
O sol se derrete em luz-horizonte
Percebe no céu de papel uma ponte
Só por um segundo

Sentado a sonhar, ao pé do pomar
Num salto se solta do monte a voar
Seus olhos na lua, seu ser ele abarca
Sua mente uma força, seu corpo uma arca
A lua de giz faz no céu sua marca
Reflete no mar

Despenca, então, à sua fria morada
Como a vida se torna emboscada?
Afoga-se sob lencóis, incomum
Procura na imagem sentido algum
Se sente pequeno, finito, só um,
Quase nada

(Lhes pergunto,)
Se Deus tem pra cada indivíduo um plano
Por quê foi dar justamente ao humano
Ao fazê-lo restrito, pensante, ansioso
Com pompa, audácia, oscilante, medroso
Mártir e santo, ou até monstruoso
Uma alma do tamanho dum oceano?





Não me lembro bem quando comecei com esse hábito. Acho que foi, de fato, em 2008 (um ano um tanto cabalístico pra mim) que escrevi meu primeiro poema-de-aniversário - um bom hábito pra alguém que extravaza no papel.
Ano passado, 2011, não escrevi. Eu gostaria de acreditar que é uma espécie de bloqueio de escritor, mas hoje percebo que esse é só o nome que a gente dá quando não quer se responsabilizar por procurar a saída.
Será que eu vou escrever esse ano?

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

[laika come home]

O povo estava reunido em volta das televisões e, momentos depois do lançamento, quebrou-se o silêncio sepulcral. A maioria especulava, alternando entre a esperança e o temor. Bisavôs e bisavós até se recordavam – fazendo alguma força - de Laika, Yuri Gagarin, Armstrong e Aldrin. Os cínicos ainda não haviam se cansado de debater a veracidade do “pequeno passo para o homem” e dos subsequentes, e os exagerados fingiam desinteresse, alegando que já viviam extraterrestres entre nós, como se já tivessem visto muito mais do que aquilo.
E enquanto todo esse burburinho acontecia nas casas – as ruas em silêncio – os tripulantes assistiam da janela o que o resto do mundo assistia nas telas de LED.
O espaço era vasto e vazio – e lindo. Todos os astronautas compartilhavam o sentimento de honra e reverência. Cada um também tinha sentimentos distintos, se despediam da terra levando consigo apenas o que não conseguiam deixar para trás. Não eram, como todos nós, apenas astronautas.
Eram pais, mães, irmãos, amores. Professores, poetas, homens de fé, felizes e tristes e conflitados. Não podiam deixar de ver luzes diferentes pelas janelas e, poupados da gravidade, agora só sentiam pesares que independiam dela. Os sentimentos eram controversos e nenhum sabia o que esperar do fim da missão quando aterrissassem talvez na superfície daquele novo planeta.

O imediato olhava para os painéis e indicadores com frequência, checando por irregularidades que pudessem ocorrer, mas aquelas luzes e botões nada diziam ao seu lado leigo. Executava aquelas tarefas como se fosse tão simples quanto dirigir um carro. Enquanto isso seus pensamentos vagavam pela estratosfera, exosfera, vácuo, indo de encontro à mulher e a filha que o esperavam.
Talvez a preocupação com os indicadores fosse medo da morte, naquele lugar onde não havia possibilidade de socorro. Talvez fosse a vontade de retornar. Quem sabe?

O psicólogo era solteiro, desinteressado, jovem – o tanto quanto poderia ser para tripular um foguete. Mas era cheio de ideias, ainda, e lembrava-se das pessoas. Já tinha visto uma série de casos estranhos, mas acreditava que condições psicológicas são na realidade doenças sociais. Pensava se encontrariam vida ao aterrissar, anos depois. Pensava se essa vida seria racional, e se teriam os mesmos problemas que nós. Depressão, apatia, paranoia, se teriam medo do objeto não identificado.
Se atirariam na nave ou não, pouco lhe importava. Só importava se haveriam curas para males que consideramos invisíveis e muitas vezes subestimamos.
Queria saber se, caso houvesse vida extraterrestre, ela traria mais problemas ou menos problemas. Teria mais problemas ou menos problemas.

Um geólogo os acompanhava. Era o segundo mais velho da tripulação e já sentia nos ossos o cinismo. Sua mente racional a única solução – ao menos até atingirem o espaço. A falta de gravidade o tocou de forma quase irreversível. Ainda não acreditava em Deus. Não acreditava em livros sagrados. Ainda depositava sua fé na ciência. Mas naquele momento teve certeza de que sabíamos muito pouco e que tudo que podia fazer era especular.
Uma lágrima lhe escapou, mas resolveu deixa-la pra depois. Ocupou-se em olhar o espaço da janela, contando as estrelas a perder de vista, e por um momento teve certeza de que pode ver com o coração mais do que o Hubble, quando capturou treze bilhões de anos de luz.

O capitão, do alto de seus quase sessenta anos cansados, tinha medo que a missão fosse infrutífera. Solo fértil, atmosfera e água fresca ou não.


Agradecimentos especiais (e desculpas) ao pessoal do Clube da Leitura da Baratos da Ribeiro, que me proporcionou a oportunidade de "sair da caixinha" com o tema do último encontro do ano de 2011. Novamente, mil perdões pelo não comparecimento e atraso.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

[pássaros]

Quando pássaros são pássaros,
Me parece – fazem pouco.
Piam, voam, são somente.
Pássaros. Suficiente.

Mas por vezes, vezes loucas
Pássaros são deuses – poucas;
Quando cantam, me sereno.
Raro. Simples. Breve e pleno.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

[mais fundo]

Se você pudesse ter observado de uma distância, do lado de fora, na segurança de poder divergir em como a noite era bonita, ainda ouviria os gritos rasgando seu caminho para fora daquelas janelas. Ainda sentiria arranhar sua espinha uma fagulha de imaginação que faria com que corresse, não importa se em socorro ou para nunca mais retornar.
Se pudesse ter assistido do lado de dentro, em cadeira cativa, sentiria pena, medo, ânsias de vômito. O cheiro forte entraria por suas narinas, as cores seriam fortes demais e os gritos, agora, ricocheteariam pelas paredes e ecoariam pelos tambores de seus ouvidos. Tentaria decifrar a escrita rústica nas paredes no chão e no teto, procurar algo que juraria ter visto se mover dentro da chama das velas ou se concentrar no tremeluzir pálido das lâmpadas de fósforo, mas não conseguiria. Seus olhos gravitariam para o homem deitado à mesa e a mulher que o mazelava em pé.
Veria que, ao cheirar os dedos, as sobrancelhas de Deirdre se arqueavam em dúvida sobre seus olhos baços e perdidos enquanto tentava decidir se o odor férreo provinha do sangue ou da ferrugem de suas ferramentas. Veria que ela pouco se deixava afetar pelo sofrimento que se intensificava e circulava pelas linhas e signos entalhados como ar viciado.
Veria que, diversas vezes, o que sobrou de Rodes amarrado à mesa, esboçava palavras que não conseguiam sequer passar de seu peito arfante. Que suas pupilas embaçadas pelas lágrimas procuravam foco em qualquer lugar. Veria que, não importa a profundidade de seu transe, onde quer que estivesse transitando, a dor era evidente.

Se pudesse entrar na cabeça de Rodes e ter a sensação de que o conhecia, sentiria nojo. Um nojo tão profundo que, ao sair de sua mente, se sentiria imundo.  Saberia de todos os seus crimes hediondos, desumanos. As vidas que tirou e as vidas que não tirou, cujos donos e donas forçou a viver em eterna espera e perda, em eterno pesar. Sentiria nojo nas coisas que fez, nos lugares que tocou, entre pernas, entre rins, o suor com o cheiro característico da adrenalina. Veria seus olhos injetados, seu sorriso amarelo e tudo que fora antes.
Ao sair, talvez concordasse com Deirdre, talvez não. Talvez não reconhecesse o que sobrou de Rodes, se contorcendo, o ar atingindo seus intestinos expostos, os ácidos de seu próprio corpo corroendo tudo pelos seus vasos sanguíneos. Seu sangue em todos os lados e a dor que gritava e suava para expulsar sempre retornando, forçada pelo rito.
Talvez tivesse a certeza – e por um segundo teria – de que ele merecia tudo aquilo que passava. Talvez concordasse com Deirdre, talvez não.

Se pudesse ver no que pensava Deirdre veria lembranças. Veria lembranças felizes e saberia que eram todas venenosas, pois haviam reagido como em química com uma única lembrança com as cores de suas filhas, de aço e de sêmen. De suas filhas que tomavam seus nomes emprestados de flores.
Sentiria dor, sofrimento, compaixão e cada um destes traria uma profunda angústia, pois saberia do fundo do seu ser, que não poderia nem começar a compreender o que Deirdre sentia. Saberia que tudo que jamais sentiu não estava nem aos pés de uma fração daquilo e se sentiria impotente.
Ao sair, se sentiria impotente de novo, pois saberia que cada osso que estalava abafado pela carne mole, aquilo não fazia com que Deirdre se sentisse melhor. Apenas fazia com que Rodes se sentisse pior - talvez fosse exatamente aquilo que ela desejava.
Veria um rosto que não era o de Deirdre, mãos que também não pertenciam ao seu mundo, ao mundo de homem algum, e teria medo do lugar onde está. Saberia que aquela era uma interseção entre seu planeta e algum completamente alienígena. Deidre havia cruzado aquela linha havia muito tempo, e se tornado algo que só se sabia humano pelas memórias que mal conseguia distinguir.
Se sentiria impotente – e talvez um pouco aliviado – por não poder fazer nada naquele quadro.

Saberia que um monstro havia criado outro e que essa era uma espiral complicada, tão complicada quanto os entalhes nas paredes.
Saberia que, para Rodes, aquilo acabaria no momento em que seu coração parasse de bater. Que ele ao menos teria essa escapatória no final.
Que Deirdre sairia daquela sala com um corpo numa sacola – talvez em várias – e que tudo aquilo que girava e girava dentro de sua cabeça continuaria em uma ciranda infinita.
Teria a certeza de que uma pessoa boa poderia se tornar um monstro ainda mais sem piedade do que um louco, pois tinha consciência do que fazia. Saberia que, tirando de alguém tudo aquilo ao que dá valor, uma besta perfeita está criada.
Mas não teria a certeza se loucura era, de fato, o caso de Rodes, e sentiria nojo mais uma vez. Decidiria não pensar mais naquilo.

Não saberia o que sentir. E depois de um momento, de uma volta completa pela espiral, se recolheria. Não poderia ser diferente.
Simplesmente veria sua compaixão se diluir em fumaça – ou não, e se sentiria um hipócrita. Seu impulso à empatia não seria o suficiente para superar a agonia. Simplesmente agradeceria que o quadro não aconteceu com você.
Pois aquele quadro não pertence no mundo de onde você vem. Ele faz parte de um abismo escuro, profundo, onde só habitam aqueles que escolheram nele habitar ou aqueles que nele foram empurrados. Um abismo onde tudo que você pode ver é a escuridão, e você viveria com prazer sem o conhecimento de onde é o fundo, e o medo não haver um.

Saberia que tem uma escolha, mas não se seria forte o suficiente para fazê-la. Teria medo e dúvida e se perguntaria, para sempre, se realmente quer ver o que há um pouco mais abaixo. Um pouco mais.

sábado, 16 de julho de 2011

[o verbo]

Antes de qualquer coisa, olá a todos.
Sou o autor desse blog.
O prazer é todo meu.

Parece bobeira. Esse blog já foi muitas coisas diferentes. Já foi uma válvula de escape, já foi um canto onde eu simplesmente soltava minhas divagações, já foi um registro, enfim: muitas coisas.
Todas eu deletei.

Tenho investido com um pouco mais de afinco na minha veia de escritor. Me convenceram que eu levo um jeitinho, mesmo não fazendo letras, advocacia ou qualquer faculdade que exija muito da minha habilidade de - ipsis litteris - escrever.
Ele significa muito pra mim, e sempre cuidei dele com bastante carinho. Como aquele caderno onde você guarda vários rascunhos, com matéria de estudo espalhada no meio e várias ofensas à arte ilustrada nas margens.

Antigamente eu não divulgava. Nem aparecia no Google se por acaso você buscasse algo próximo.
Hoje em dia eu gosto de passar ele quando chega num tal ponto da conversa, mas bem... eu ainda não tenho o habito de cantar de galo e falar pra todo mundo "Oi, eu escrevo! Quer ver o meu blog?"
Meu nariz empinado já me confere toda a fama de convencido que eu preciso. Tenho medo de aumentá-la. E um pouco de timidez, veja você.

Mas tenho vencido isso aos poucos. Já posto discretamente no Facebook quando atualizo, em breve no Google+, essas coisas.
Estou tentando vencer meu preconceito com auto-promoção e começar a espalhá-lo por aí, mas quero fazer isso de um jeito que seja confortável pra mim... ando pensando.

Mas não é sobre isso que eu queria falar.
Digo, também, mas não só isso.

Sei que é chato ler textos compridos na tela. Eu tenho bastante dificuldade, mas eu sempre tento fazer os meus contos recompensadores o suficiente pra se gastar um tempinho.
Então queria agradecer às pessoas que acompanham em silêncio e deixar claro que os comentários são importantes pra mim. Gosto de críticas inclusive.

Aos que comentam, obrigado. Ganho revisões de graça de vez em quando (hohoho), os elogios me envaidecem o suficiente pra ter vontade de postar e as críticas eu sempre levo em consideração.

Queria agradecer especialmente à Jasmin Sanchez, que sempre me botou a maior pilha; ao Bernardo Stamato, que também é escritor (os blogues dele estão na minha barra lateral - ali ó); e à Bruna Saddy, que sempre elogia meus contos muito mais do que eu mereço, mas eu sei que faz parte do ofício de namorada.

Passem pra seus amigos que gostam de ler também. Me faria muito feliz.

Muito obrigado :) o éter agradece.

Daniel Ximenes

segunda-feira, 6 de junho de 2011

[ciência]

inquérito:
- O que eu tenho na minha mão? – segurou-a na frente do rosto, um pequeno punho.

tentame:
- Uma bola de gude!
- Nem perto. – um meio sorriso. Fitou o amigo com os olhos brilhantes de expectativa.
- Um boneco! – brincava inocente, esquecia-se de acertar.
- Também não.
- Hm... – abaixou a cabeça, um bico, olhando o chão - Quantas chances eu tenho?
- Quantas você quiser! – sorriu apertando os olhos.

ofensa:
- Um carrinho?
- Não. – quase bocejou.
- É um brinquedo? – perguntou sem malícia.
- Não! – aborreceu-se. – Não! Por favor, não! – brandia as mãos sem abrir a que segredava a resposta. – Não chame mais de brinquedo. – olhou para a mão.
- Tá bom. Desculpa... – embaraçou-se.

dicas:
- É vivo?
- Sim
- É uma flor!
- Não.
- Um besouro nojento!
- Não.
- É de que cor?
- Só perguntas de sim e não. Senão, acaba a graça.
- Está vivo agora?
- Sim.
Era complicado pensar em algo que pudesse estar tão tranquilamente vivo em um espaço tão pequeno.

lógica:
- Vamos, de novo! – sorriu.
Olhou em volta, procurando inspiração.
Tentou procurar por objetos faltantes. Não se deu por nenhum, mas ficou em dúvida, pois já fazia algum tempo. Porém, talvez houvesse outro do que ele segurava em algum lugar em volta. Fixou os olhos.
- Areia?
- Não.
- Uma pedra?
- Não. Menos sólido.

generalismo:
- Ar. – orgulhou-se da resposta e estufou o peito cheio de propriedade.
- Também, mas não é disso que eu estou falando.
Soprou, murchando. Olhava sem foco, pensando. Levantou um dedo.
- Espaço.
- Sim, mas também não é isso. Pare de chutar coisas genéricas.

superação:
Coçou a barba por fazer.
- Ao menos existe?
- Sim, é claro.
- E eu posso tocá-la?
- Você pode tocar em algo?
- Claro que eu posso. Estou tocando um monte de coisas nesse exato momento.
- Há quem diga o contrário. – a satisfação transpareceu nos seus olhos.
- Não importa. É físico?
- O quê não é?
- É físico ou não, droga? Estou perdendo a paciência.
- Então está perdendo o jogo.
- Caralho... – franziu a testa.

presunção:
- Vou assumir que se você pode segurá-la eu também posso.
- Você está errado.
- Por que, diabos?
- Você não sabe o que é.

empirismo:
- É um sentimento?
- Um pouco. – sorriu satisfeito.
- Felicidade?
- Não, mas pode trazer.
- Amor?
- Não. – soltou uma risada breve. – Você consegue segurar isso?
- Droga!
- Isso também não...

astúcia:
- Dedos. – a palavra escorreu com ironia e ele levantou uma sobrancelha. Batucava a mesa com os dedos.
- Isso é parte da minha mão, não dentro dela. – respondeu. – Pare de tentar trapacear.

impaciência:
- Meu tempo perdido.
- Quem escolhe perder o tempo é você.

cansaço:
- Desisto.
- Então você perdeu. – não abriu a mão, o rosto a mais genuína tristeza.
- O que é?
- O quê?
- O que você tem na sua mão.
- Eu pensei que você não queria mais brincar.
Houve uma pausa. Revoltou-se. Suas sobrancelhas brancas franziram-se e sua boca abriu esbravejante.
- Mas o que tem na sua mão!?
- Não importa.
Respirou fundo. Seus pulmões não eram mais os mesmos. Segurou os cabelos brancos
- Mas eu quero saber o que você tinha na mão!
- Por quê?

desconhecido:
- Porque estou curioso!
- Então tente de novo!
Fez-se silêncio e puderam ouvir o barulho dos pássaros.
- É impossível. Eu já tentei tudo. Nada faz sentido. Você me dá respostas contraditórias!
- Nem um pouco contraditórias. Você estava perto quando começou.
- Então me explique.
- E se eu te disser, o que acontece?
- Eu vou ficar satisfeito.
- Por quanto tempo?
Parou.
- Por que começamos a brincar?
Mais silêncio. Suas olheiras o perturbavam.
- Queríamos nos divertir.
- E se eu te contar? O que acontece?
Coçou os olhos cansados. Olhou seu velho companheiro.
- A brincadeira acaba.

inquérito:
- E se você acertar?
Naquele momento teve súbita certeza da resposta - e com a mesma certeza, não respondeu.

resposta:
Ergueu na frente do rosto do amigo sua pequena mão fechada novamente. As duas crianças continuaram a brincar.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

[para]

Para ele se irritar no trabalho precisa de muito, mas hoje foi demais, irrompe da porta de casa e se depara com mais uma cena que cansa, mal respira, não dá conta da pressão e cospe palavra incauta atravessada no peito daqu-

Ela, que se preocupa e que quer o bem do seu marido não merecia ter escutado tal palavra torta, mal disposta chora a mágoa na frente d-

A filha abre a porta e não entende, cresce pra não entender ainda mais porque tudo se separa, tem medo de sentir mais que uma fisgada de paixão porque a lágrima na face da mãe não lhe larga o pensamento, e sem querer, querendo, desdenha o sentimento d-

Ele, que é jovem, frustrado, só tem o que não faz questão, trabalha pra viver, vive pouco, começa a crer que só vale o que tem no bolso, a cabeça é névoa e faz tempo que o olho não vê colorido além do verde da nota, deixa tudo pra trás e não liga pr-

O cara sente inveja, "o colega tem tudo que quer!": dinheiro, mulher, vive bem, toma café no lugar caro todos os dias, sorriso estampado na cara, amarelo de cigarro - sente raiva, passa pra trás, joga sujo, tá arriscando tudo pra sentar naquela cadeira, tudo que queria era estar no lugar d-

Ele chega todos os dias em casa e lembra que todo mundo é igual, como no mundo tem gente louca demais, espaço de menos, gente tentando acabar com a vida dos outros até no trabalho, que depois que a mãe morreu é tudo o que ele tem, já que o coração começa a virar pedra, ou é isso que ele decidiu depois de tentar sentir de novo o que sentia com-

Ela continua correndo, já faz tempo, mas ainda sente a falta daquilo que tem medo, ainda que não saiba, começa a pensar que nada vale a pena que no mundo tem gente louca demais, espaço de menos, gente se separando e se machucando, escreve um bilhete perguntando se loucura é ir embora ou continuar aqui, ter um filho e deixar ele sem esperança, pula do sexto andar ainda lembrando da lágrima no rosto d-

Ela não tem perspectiva, ele já não é mais o mesmo, ela está ficando velha a cada dia que passa uma ruga nova, seu rosto já é um mapa daquilo que ela viveu demais pensando nos filhos, foi cansativo, mas valeu a pena, mas no mundo tem gente louca demais, espaço de menos, gente querendo o mal dos outros, e ela se preocupa a cada dia que passa com o bem estar dos filhos e a felicidade d-

Ele é orgulhoso, não abre os olhos pra ver o que aconteceu de verdade, entender que as palavras dele tem mais efeito do que ele jamais sonhou ter, mas ele não enxerga e só queria ser uma pessoa digna de respeito, importante pra alguém, mas o chefe está pegando no pé dele, aquele projeto não vai sair tão cedo, ele sempre depende dos outros e repara que o mundo tem gente louca demais, espaço de menos, gente que não move um bedelho pra mudar a situação das coisas, pra fazer o trabalho com cuidado, atenção, carinho, e esse é o serviço dele em tudo enquanto pai, só quer o bem dos filhos e tem medo, sabe que vai continuar sendo difícil, mas reza pra não ter criado galinhas e sim águias, e reza também pra um dia perceberem que tudo que precisam é se perguntar por que diabos a gente nunca
para.