sábado, 27 de setembro de 2014

[ilha]

A cada dia avança o mar e encolhe-se a ilha;
Eu, a rabiscar com tinta em folha, esvaziava mais uma garrafa a servir de aposta;
Lançei-a ao mar e esperei - em vão - resposta.
Qualquer.

Não fosse a primeira garrafa, a mim bastaria a ilha - talvez.
Mas nas letras que ela continha eu vi um pedaço que faltava de mim;
Alguém em outra ilha escolheu lançar a garrafa, a esmo.
Um pedaço de alguém! - assim mesmo.

Não fosse a primeira garrafa! Escolhi responder. Ousei.
E mais garrafas vieram  - milhares, milhões. Não sei.
Mas não respostas.
A cada mil encontro mais uma pedaço do quebra-cabeças.
Não me parece ter final.

E quando eu respondo, é só porque queria que soubessem que a peça serviu.
Que guardo-a sempre comigo. Sempre. Que, sempre que posso, transcrevo-a.
(Pois sou só parte dono do que sou.)
Que sirva a mais alguém - a um amigo.
Também transcrevo pedaços que já tinha comigo.

Mas a cada dia lanço ao mar outra garrafa de gratidão. Esperando resposta - em vão.
Esperando uma reação - um "Disponha". Só gostaria de saber que chegou.
Que soubessem que me tocou.
E sonho que sejam tão sedentos quanto esse naufrágio de mim. E que os toque.
E nada.

Eu rabisco com sangue e fúria e febre e fé,
Porque apenas tinta em folha não basta. Sabe quem já leu.
Porque a cada dia encolhe-se a ilha-eu,
E espero, sedento, resposta. Qualquer.
Antes que só reste aos meus olhos o sal e o mar e eu já não possa mais ler.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

[ainda]

Ainda sou crítico,
ainda sou nervoso,
ainda sou romântico,
ainda sou sensível,
ainda sou chorão
(às vezes),
ainda não ligo pra futebol,
ainda não assisto jornal,
ainda sou inseguro,
ainda sou indeciso,
ainda durmo mal,
ainda acordo tarde,
ainda como besteira,
ainda fico doente,
ainda não arrumei o quarto,
ainda desejo a paz mundial quando assopro a vela no meu aniversário
(depois penso em coisa menos boba),
ainda sou iludido,
ainda sou tenso,
ainda sou ansioso,
ainda seguro a porta
(pra todo mundo),
ainda dou bom dia
(pra quase todo mundo),
ainda não sei a hora de desistir,
ainda sou louco,
ainda sou difícil,
ainda sou vulnerável,
ainda sou complicado,
ainda sou medroso,
ainda sou apaixonado,
ainda sou impossível,
ainda sou incurável,
ainda sou honesto,
ainda sou sincero,
ainda não me conformei,
ainda não me adaptei,
ainda sou bonzinho,
ainda sou otário,

Ainda sonho.
Ainda sobrevivo.
Ainda assim.

segunda-feira, 24 de março de 2014

[terceiro pilar: azazell]

Queima e abrasa na furna noturna
O crisol funde a essência lasciva, imunda
Que emerge do cerne, esse câncer que pulsa
E que pulsa e que cresce e nos causa repulsa

Inumano que enxerga, que tenta e revela
Inumano que pune, que julga a parcela
Do ímpio que cada cabeça carrega
Que cada cabeça esconde e renega

Mas pensa e deseja e pretende-se ao mundo
O desejo profano, primeiro, profundo
O que para? O que impede tão louca vontade?
Que crime se deve? Sentença? Piedade?

A vingança perfeita é aquela que é feita
A priori – antes mesmo que o crime se aflore
Então pune, Azazell, pra que reste nenhum
Sob o céu - Sobre o céu – Sobre céu algum

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

[glifos e grafos]

Ter me formado em Design, a despeito da minha falta de habilidade com desenho, foi essencial na minha formação como escritor - algo que somente me sei, no momento, já que não tenho livros publicados. As peculiaridades da captação da informação pela imagem são muitas, e estudá-las acabou me ajudando a colocar algo em contraponto com a maneira como as pessoas absorvem o texto.

Cheguei, tem muito tempo, à conclusão de que as pessoas não gostam de ler. “Uma imagem vale mais que mil palavras”, afinal – ler mil palavras exige muito mais tempo e dedicação do que olhar uma imagem. Talvez por isso exista hoje uma rede tão grande de emissores de informação compartilhando gifs de gatos e memes.
Não digo isso em detrimento do valor da imagem, seja ela fotografia ou pintura, mas temo que nos dias atuais tenhamos chegado a uma cultura da informação como “fast-food” – informação científica, jornalística ou mesmo fictícia. Isso foi crucial pra que eu reparasse que a absorção do conteúdo literário toma muito mais tempo do que a absorção do conteúdo gráfico.
O conteúdo gráfico é chamativo o suficiente pra atrair o primeiro olhar. Ele grita, bate na sua porta e está lá. A análise da forma precede a análise do conteúdo.

Mas nem sempre é a forma que comunica. Existem limites para a forma.

Gosto de citar esse vídeo do Richard Seymour (em especial  o trecho entre 5:05 e 5:50, mas o vídeo é inteiro sensacional):




“Is it beautiful now?”
O conhecimento da narrativa por trás da imagem traz uma beleza totalmente nova. Essa imagem só vale mais do que mil palavras porque você passa a conhecer as palavras por trás dela.

Arrisquei, recentemente, participar dos Desafios 2 Minds. Mas diferente da proposta – que é fazer um desenho ou pintura – decidi cumprir os desafios escrevendo em 30 minutos um pequeno texto ou poesia. Me deparei com uma dificuldade quase intransponível que é formular o conteúdo pra escrever um texto e redigí-lo se preocupando com a forma em 30 minutos.

Essa é a diferença crucial entre a informação verbal e a informação visual. A informação visual "depende" de um conhecimento emocional prévio do leitor. A informação verbal pode te aproximar muito do conteúdo, de maneira que você possa se relacionar com ele, mas requer dedicação.

A imagem é primáriamente formal, e a forma está relacionada com a técnica – a composição, a habilidade do artista. Se o conteúdo de uma imagem é raso, você ainda pode apreciá-la pelas suas formas e cores.
É quase imediato “sentir” a imagem. 

A informação verbal possui uma carga forte de forma – se ela é bem escrita, possui cadência, ritmo, se as palavras são bem empregadas – mas ela é intrinsecamente dependente do conteúdo. Se o conteúdo não for interessante, não existe remédio para o seu texto.

Talvez por isso, e pela qualidade relacional do conteúdo, existam tantos autores que carecem de técnica se dizendo escritores. Porém, a falta de conteúdo – por este depender não só da habilidade do escritor ao produzí-lo, mas também da carga subjetiva vinda da relação entre ele e o leitor – é mascarável. Se o autor te conta a história que você acha que quer ouvir, talvez você fique satisfeito.

Porém, na minha opinião, o leitor experiente quer ser surpreendido. A maestria passa a estar no autor que te conta uma história que você não sabia que queria ler, mas depois de lida você sabe que nunca mais será o mesmo.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

[madrigal: até que a morte]

Escrito em 30 minutos para o Desafio 2 Minds.

Como se veste a morte? Para o enfermo,
Um terno, em sua eterna compostura,
Traz uma maleta sem remédio ou atadura que conserte
Mas apenas a conta e um contrato
Leva-o no primeiro contato.
Não tem a mesma sorte o assassinado;
Talvez a vista com capuz, quando condenado,
enquanto o fio da guilhotina se aproxima e reluz
Revelando que a vida não faz sentido.
A morte empunha a adaga (se traído).

Ao caçado vem, de repente, com o rasgar da garganta
E vê Thanatos com cheiro de sangue - de couro, a manta
o grasnar de corvos, um colar de dente?
Quando tomado, então, por acidente -
Bate o carro, vira a balsa;
Samedi ri do acaso, o sauda com sua cartola branca
estende a mão ossuda e o convida para a valsa
oferece um charuto - livre do vício e da dependência.

Mas quando se aproxima a senescência,
Não cede ao peso de culpa ou arrependimento,
Recebe a dama sem desafeto.
Veste-a de noiva (vestido e véu)
Fita os olhos de Azrael.
Estende um anel de casamento.

[um conto sobre morte]

Escrito em 30 minutos para o Desafio 2 Minds.

Era uma vez, em um reino muito distante, um Rei. Esse rei era um tirano mesquinho e cruel, e reinava toda sua terra com punho de ferro. Todos aqueles que se recusavam a pagar seus tributos tinham suas casas queimadas, suas terras salgadas e seus filhos levados para o castelo para servir como escravos.
O que impedia os camponeses de se revoltarem contra o Rei, era o fato de que ele era imortal.

Como o tirano que era, certo dia o Rei enviou comitivas de soldados para terras distantes e prometeu graças e ouro aos que lhe trouxessem a vida eterna – ou perderiam suas vidas ao retornarem. É claro, uma única comitiva retornou. Traziam algemado um sábio que, diziam, sabia como alcançar a imortalidade.
O Rei, então, o torturou até que ele o contasse e conseguiu o que queria. Uma vez que o sábio também era imortal, o Rei o aprisionou em uma jaula e o prendeu em uma torre escondida do castelo, para que ele nunca mais fosse encontrado.

Um dia, a Morte veio até o sábio e, vendo que ele havia sido aprisionado pelo Rei – o homem a quem concedera o segredo da vida eterna – perguntou o que havia acontecido. O Sábio contou-lhe então sobre o Rei tirano, sobre como ele governava seu povo frágil e como havia sido torturado até que, em sua vulnerabilidade humana, ele havia revelado seu segredo.
A Morte então, cega de raiva, começou a vagar pelos salões do palácio, invisível aos olhos de todos – afinal, só os sábios podem enxergar a Morte. Rápidamente ela descobriu que toda a família do Rei, seus filhos e netos, cobiçavam o trono do seu pai.
A Morte revelou-se ao filho mais velho, herdeiro ávido e de direito da coroa, e lhe deu um anel. Ela contou que o anel possuia o poder de matar uma única pessoa que ele tocasse - com o dedo em que o vestisse - mas que após matar uma pessoa ele deveria se desfazer do anel ou morrer, ele mesmo, ao nascer do sol.
O filho mais velho vestiu o anel em seu indicador e foi até a sala do trono. Exigindo audiência com seu pai – que, era sabido, era obcecado por jóias -, trouxe uma pérola que havia encontrado como presente. Ele entregou a pérola ao seu pai sobre uma almofada de veludo vinho, e aproveitou o momento para tocar-lhe a mão. No salão real, minutos depois, o Rei Tirano morreu, sentado no Trono.
O príncipe se desfez do anel arremessando-o pela janela, pátio afora.
A morte havia contado o segredo para o filho do meio, que já sabia que seu irmão iria se desfazer do anel e enviou espiões para saber onde.
Um a um, a Morte contou a todos do palácio: o irmão mais novo do príncipe, depois aos irmãos do Rei, depois aos generais de guerra e assim por diante.
E um a um, a Família Real fez o trabalho sujo por ela, com carícias amaldiçoadas.

Não se sabe, até hoje, se alguma outra família apareceu para tomar o trono do Rei tirano. Não se sabe porque o reino todo desapareceu, do dia para a noite. As casas, agora, estão vazias e empoeiradas, alojando apenas os pássaros cansados durante a noite, e os morcegos cegos durante o dia.
Não se tem notícia do anel. Nem da morte.

Só o Sábio viveu – acredita-se – e levou com ele o anel, que carrega em uma fina tira de couro em volta do pescoço, para que possa, ainda, abraçar as pessoas que ama.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

[baten kaitos]

Escrito em 30 minutos para o Desafio 2 Minds.

Considere, por um segundo, o lugar onde você está. A cadeira onde você se senta, lendo esse panfleto. Num ônibus talvez? Ou no banco de uma praça?
Olhe ao seu redor. O que você vê?
É dia? O sol refletido na neve faz com que cubra os seus olhos sensíveis?
Ou é noite, e tudo que se afasta da luz permanece confortavelmente oculto do seu olhar? Você sente medo?
Você é treinado para temer. Não importa quem você seja.
Se for apenas uma pessoa comum, você é treinado para temer o desconhecido, e eu estou aqui para libertá-lo desse medo.
Por séculos te enganaram. Espíritos, vampiros, fadas, tudo isso é real. Eles espreitam cada canto. Riem de você quando você não está olhando. Mesmo se você olhasse diretamente para eles, talvez não os reconhecesse como são. Você é treinado para sentir medo, e o seu medo é o que te cega. Para você, um vampiro pode ser uma pessoa comum. Uma fada, só uma mancha no canto do olhar. Um espírito, só um calafrio. Sua mente vai te enganar, sempre,  porque você foi criado em uma teia de mentiras e a verdade te deixaria louco.
Você foi enganado, treinado e educado desde pequeno para acreditar que o seu medo do escuro é apenas coisa da sua mente. Está errado. O seu medo do escuro é a única coisa que te mantém vivo.
Mas não é dos vampiros e fantasmas que você tem que ter medo. Não. Nem são seus pais a quem você deve culpar. Eles são apenas vítimas, assim como você. Se você tem filhos, provávelmente repetiu a mentira que lhe contaram tanto quanto os seus pais a repetiram para você.
Os culpados são Eles. Eles pensam que são melhores que vocês. Eles tem medo da Caça-às-Bruxas, tem medo de serem descobertos. Eles enganaram todos vocês com seus ardís e encantamentos durante séculos.
Pensam que são uma casta superior. Pensam que estão te protegendo do mundo. Você, mero mortal.
Você acha que as cidades e a tecnologia tornaram a seleção artificial?
O último Dragão selado por magos na Moldova em 1847, sob o pretexto de que são muito perigosos. Florestas foram queimadas por conterem muitos seres de Arcádia – fadas, trolls, sílfides.
Eles acreditam que vocês, humanos comuns, não possuem talento mágico. Estão errados novamente. Todos vocês tem poder, e são privados dele por essa jaula que os blinda de todos os estímulos certos, impedem vocês de receberem sua herança de magia. Todos os seus predadores estão do lado de fora da jaula, e enquanto isso a humanidade cresçe como uma grande sanguessuga obesa e virulenta, em uma ditadura da mediocridade.
A grandeza tem um preço, certamente, mas é um preço justo.
Agora que sabe, você tem a escolha. Abra seus olhos e busque a verdade, mesmo que isso o mate, ou escolha perecer na cama de mentiras que já estava feita desde antes do dia em que você nasceu.
Se você for um Mago, e pensa que esta mensagem não é para você, é mais ingênuo do que pensa. Você não é um d’Eles. Esta mensagem também é para você.
E você não é digno. Mesmo sabendo da existência do sobrenatural, você escolheu não enxergar.
Mas no fundo, você sabe. Aquele som. Sim, aquele som que você ouve, no silêncio do interior do seu templo, quando é tarde da noite e se recusam a entrar até mesmo os espíritos mais rudimentares. Aquele som do seu feitiço falhando fútilmente, quando você tinha certeza de que conseguiria.
São as correntes.
Você consegue ouví-las? Clink-clank-clink-clank, a cada minuto do seu dia, arrastando atrás de você.
Toda vez que veste um sobretudo para cobrir seus estigmas, toda vez que coloca óculos escuros porque sua magia prevalece sobre sua matéria e seus olhos não tem um colorido “humano”, você está perpetuando a calúnia.
Eles mentiram para você também. O Leviatã não está la fora.

Você está junto conosco dentro do Estômago dele.

Se a luz da verdade for demais para você, tape os olhos. A Alvorada está chegando.

- Russel, Koloman