sexta-feira, 26 de outubro de 2012

[excerto de um tomo encontrado nos aposentos de andrik sardu]


Existe uma crença falha que é largamente difundida por puro descuido em toda academia de magia em que tive o prazer (e em algumas o desprazer) de colocar os pés.
Adereço-me neste momento a você, leitor, confidenciando que nunca me esforcei para negá-la abertamente em nenhum de meus trabalhos acadêmicos mais difundidos. Seria, para mim, um desserviço imenso, além de um grande inconveniente, se chegasse porventura aos ouvidos errados.
 Peço, portanto, perdão pela minha digressão, mas esclareço-a: o direito de ler este tomo restringe-se só e somente só à minha pessoa.
Caso já tenha cometido o erro de começar, saiba que meus aposentos estão sob o efeito de barreiras mágicas, dentre elas – mas não somente - a Clave Regia, o Claustro de Thalmud e o Labirinto Dedálico.
Aproveite, portanto, seu tempo.

A crença se trata de um dado memético repetido desde, suponho, a Idade Média:
Humanos não possuem talentos mágicos inatos.

Além de minha crença no poder inato ao ser humano ser antiga, e advinda de uma série de casos isolados que tratei ao longo dos anos no Hospital, um caso em particular reforçou minhas pesquisas
No século XVIII fui compelido a fazer uma visita a um pequeno vilarejo a duas horas do Condado de Gloucestershire na Inglaterra, onde haviam sido encontradas no espaço de dois anos três vítimas de Esquizofrenia por Hipersensibilidade Sensorial, um caso grave de Thelemania (perda do controle sobre os próprios poderes) que custou à vítima toda a sua família e sua criação de gado – todos assolados por uma nevasca totalmente fora de época, que além de ter congelado os bovinos mais próximos à sua residência, queimou o terreno por milhas e fez com que os demais morressem de fome e frio – e, descoberto depois de alguma pesquisa, seis combustões espontâneas, além de um sem número de desaparecimentos ao longo das décadas. Neste lugar, com a ajuda de um estudioso da metodologia de busca do baculus divinatorius, fui capaz de encontrar uma confluência de linhas telúricas.
Estas apresentavam, localmente, toda a coerência de linhas telúricas naturais. Porém, não me contentei. Consegui acesso ao acervo pessoal do Visconde, que se provou ser muito solícito. Nele encontrei um volume do século XIV – assinado por um E. Vyzart, cujo brasão tomei nota para futura pesquisa -, que retratava todo o mapa telúrico da região. Enviei meu assistente, Beric, à biblioteca nacional em busca de outros manuscrítos que pudessem confirmar que esse documento era preciso, enquanto comparava a diferença das linhas.

Recorri aos meus humildes conhecimentos da Linha do Sepulcro e fui muito bem sucedido ao descobrir um espírito atado a um abeto no local.
Transcrevo, agora, as palavras que ouvi ao forçar uma conexão com o eco:

“Os que se afastaram do abraço da vida, que agora temem as vias misteriosas do universo, nos acusam de assassinas, idólatras e indignas. Sua ignorância e negligência alcançam agora nossa paz, e a despedaça com garras de horror e repulsa.
Derramando óleo no fogo, deixando que nossa carne evapore, podemos ouvir em suas vozes ensandecidas que irão abrir a represa, e deixar que a água leve nossos lares. Deixem que gritem seu mantra fulgurante com a confiança dos tolos, pois seremos nós as libertas!
Deixem que nos rebaixem a párias até que nossos corpos sem vida se partam. Caso realmente aconteça, estará cumprido nosso dever. Ficará apenas a amarga bruma da profecia imposta.
Quando o sétimo filho do sétimo filho nascer ele trará com ele uma nova alvorada.”

A cena  pré-datava o conhecimento mágico formal de hoje, que é difundido pelos humanos. Pré-datava a Rosa-Cruz, o incidente de Salem em 1692 e até mesmo a primeira publicação do Malleus Maleficarum.
Semanas depois Beric retornou com dois outros manuscritos confirmando minha teoria de que a disposição das linhas telúricas havia sido pesadamente alterada, chegando a afetar áreas próximas à Cheltenham e grande parte de Stroud.
Não haviam no local selos druídicos, runas futhark ou qualquer tipo de alfabeto que remetesse a outros planos, nenhuma configuração cabalística, ou qualquer tipo de selo para invocar divindades.
Havia apenas um desenho ininteligível – algo totalmente desprovido de significado e que, se me é permitido presumir, estaria para qualquer sistema mágico de signos como a idioglossia está para a linguágem. Porém, era sofisticado, ou ao menos racional, pois seu traçado fazia com que a energia em fluxo pelas linhas telúricas confluísse, sem pressupor nenhuma conexão com entidades conhecidas. Aparentemente seu objetivo era concentrar a energia sem empurrá-la ou absorvê-la, como é ensinado hoje em dia.

Isso me leva a minha tese: os humanos de hoje são apenas sucessores falhos dos humanos da antiguidade. Cópias incompletas e presunçosas.
Os que conseguiram reconquistar sua autarquia conseguem abrir portas tão grandes que muitos podem enlouquecer – como foi o caso dos três esquizofrenicos retirados e levados ao Hospital – caso não haja o intermédio de uma força maior, ou de um mentor.

No primeiro capítulo de minha tese analisarei o selo e as palavras do ritual que presenciei na minha regressão ao abeto, e também a distorção efetuada nas linhas telúricas.
No segundo capítulo apresentarei os artefatos encontrados na subsequente escavação que foi iniciada pelo Sr. Koganei.
No terceiro e último capítulo, retomarei a tese desenvolvida em meu  livro Caíndo Longe da Árvore, a respeito da genealogia de espécies mágicas para apresentar uma teoria a respeito da ausência de limites para os poderes mágicos dos humanos.

Humanos – pobres humanos, odiados por demônios, apadrinhados por anjos, cobiçados por vampiros – podem ser muito mais do que parecem. Podem ser o que quiserem.

-Excerto do livro Davi e Golias: Um Ensaio Sobre Presunção
Escrito por Andrik Sardu

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

[um livro sobre dragões - excerto I]

De acordo com os registros de Azur Van’myr em seu livro Sete Corações de Realeza: A Ascenção e Queda do Império Ur-Dracônico, os raríssimos Dragões Régios que sobrevivem aos perigos do Rancor – transformando-os, possivelmente, em Volsung (os Mortos Tiranos) – e do Delírio – transformando-os em Van’aar (os Perdidos) – por tempo o suficiente para alcançar sua idade mais avançada e progredir ao pico de sua proeza mágica, são denominados Eosyth (os Utopianos). Ao invés de definhar naturalmente com a idade, sua percepção de tempo-espaço começa uma longa transformação que anuncia a chegada de seu terceiro e último cíclo de rápido crescimento possível no desenvolvimento de um Régio – durante esse tempo, o Dragão irá selecionar um local amplo e realizar uma purificação, onde ele irá, durante cem anos, apenas comer e dormir e crescer de dez a cinquenta vezes seu tamanho.

Um Dragão Régio em terceiro ciclo é extremamente territorial e fácilmente perturbável. Tentativas de comunicação com esses dragões durante seu período de purificação é amplamente considerado uma má idéia. Antes de tudo, seu típico capricho dracônico está em seu estado mais latente, tornando-o inclinado a devorar qualquer criatura que se aproxime, salvo sua própria espécie. E em segundo lugar, se sua mudança de percepção sobre o tempo-espaço já estiver avançada, suas alterações sensoriais podem inviabilizar qualquer comunicação. Isso é óbviamente agravado pelo choque de escala.

Quanto a sua escolha de refúgio para viver, Eosyth preferem paisagens abertas às usuais cavernas, devido ao seu rápido crescimento e falta de preocupação com predadores – os Eosyth estão, até hoje, acima de qualquer cadeia alimentar conhecida e são imune a qualquer doença conhecida.

Suas escamas tornam-se mais grossas e, contrastando com seu lustre e lume do segundo ciclo, suas cores ficam mais opacas, lembrando pedras brutas e antigas com uma fraca cintilação ao invés de reflexos agudos. Seus movimentos demoram-se mais a cada dia por conta de suas alterações sensoriais, enquanto seu apetite transita de criaturas de grande porte, para bestas gigantes (se presentes em seus biomas de escolha) e então árvores.

Na última metade de seu terceiro ciclo o dragão começara a retardar sua atividade, dormindo por períodos mais longos e ficando acordado por períodos cada vez menores, comendo principalmente pedras – uma vez que não existem mais alimentos que possam saciar sua fome colossal – até que ele recolha ao seu ponto de repouso final, onde se dará seu ocaso. Por seu tamanho titãnico, o dragão provavelmente ocupará toda a paisagem de sua escolha, caso não seja um oceano, deserto ou grande planície.

Então ele dormirá até que sua alma abandone seu corpo e se dissolva de volta à terra.
Talvez os Dragões Régios saibam onde os Utopianos morrem. Talvez procurem por seus túmulos através de instinto e empatia, ou talvez o espírito do Eosyth os atraia do além de seus ossos colossais em um sutil e esquecido elo de sangue. Isto não é sabido.

Mas se o explorador ousado ou o acadêmico claustrofóbico decidir lançar-se aos ventos e viajar até os refúgios e paraísos onde uma vez viveram e reinaram os Dragões Régios, e fosse em busca, faminto, pelos ossos de suas citadelas e castelos, descobriria que eles muito se assemelham aos ossos dos falecidos Utopianos.

- Spiritus Ignis, Spiritus Vitae: Um estudo sobre Dragões; Elric Swayn

sábado, 13 de outubro de 2012

[thank you]

Today I went to a Marillion concert. I doesn't really interest you that read my blog, but I was able to give the band a note, together with a gift :)

Pete Trewavas noticed my anxiety, walked over to me and I thought I could read his face saying "What the hell does this guy want" until he touched the little bag I was handing him. Then he looked at it and his face lit up - I bought them marbles.

He walked to Steve Hogarth and gave it to him. It made me very very happy.
I hope Pete didn't get me wrong - the gift was meant for all of them for all the light and epiphany their music has given me time and time again.
But I can't deny it was especially to Steve H. that has made me ne notice things about myself many many times in his lyrics. And never more than right now.

I leave here a short public "Thank you" to them, because I know I could go on and on about the beauty of their music. But that would be pointless - I have no proof, only words only words only words.

Just,
Thank you :)




Hoje eu fui no show do Marillion. Não é muito interessante pra vocês que me acompanham, mas consegui entregar um bilhete à banda junto com um presente :)

Pete Trewavas reparou o quanto eu estava afoito e andou até mim e acredito que pude ler na cara dele "Que raios esse cara quer?" até que ele pegou a trouxinha que estava na minha mão. Ele olhou o que era e sorriu - comprei bolinhas de gude.

Então ele andou até Steve Hogarth e deu a ele o pacote. O que me deixou muito feliz.
Espero que Pete não me entenda mal - o presente foi para todos eles por toda a luz e epifania que a música deles me trouxe de novo e de novo.
Mas não posso negar que foi especialmente para Steve H. que já me fez perceber coisas sobre mim muitas e muitas vezes com suas letras. E agora mais do que nunca.

Deixo aqui um curto e público "Obrigado" a eles, porque sei que eu poderia escrever sem parar sobre a beleza da música deles. Mas isso seria inútil - I have no proof, only words only words only words.

Apenas,
Obrigado.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

[agulha]

Amor
e o espaço que ocupa
Tão pequeno, que às vezes machuca,
na cabeça (de agulha)
Quem dança? Não te preocupa?
Então mergulha no espaço que ocupa
Amor,
Na cabeça da agulha
Quem dança esse tom se orgulha.
Não anjos, confira (com lupa)
fazendo, ao acaso, uma festa.
Amor,
Ajuda - a festa -
que a mente se despreocupa,
Contanto que haja uma fresta
O amor, como gás, ocupa
o espaço que
(a mente emp)resta.


27 de setembro? Dois meses de atraso pro meu poema-de-aniversário. Justo.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

quarta-feira, 16 de maio de 2012

[eu, escritor?]

Antes de começar, peço desculpas. Esse post será pra lá de egocêntrico e talvez um pouco desagradável praqueles que se identificarem.


Andei me lembrando de como eu costumava escrever quando era mais novo. Não que eu me sinta velho agora. Quando digo ‘mais novo’ é daquele jeito que falamos dos 15 anos pra sentir menos vergonha.
Eu não comecei escrevendo. Comecei brincando no RPG Maker. Me lembrei de uma forma vívida demais pra ser agradável da sensação de exaltação que eu tinha ao fazer histórias bobíssimas, clichês e me divertia com elas durante horas, meses, “programando” e desenhando os personagens animados. Para os mais familiares com termos de jogador, cheguei a terminar a primeira dungeon de pelo menos uns três RPG’s, mas alguma mão divina sempre fazia meu computador dar pau e eu precisava formatar. Daí sempre começava de novo, com uma história nova, muitas vezes. Ficava orgulhoso e continuava fazendo, soltando minha fumaça sem precisar de ninguém olhando nem me dizendo que estava legal.
Depois comecei a escrever histórias épicas – só começava – mas depois de um tempo largava por falta de ideias. Sempre começava outra. Sempre via meus erros e pensava “eu mudei e não me identifico mais com isso”, partindo pra próxima.
Então abri o  fotolog (devidamente deletado) onde eu fazia registros pra mim mesmo das coisas que eu queria registrar. Nunca me preocupei com notoriedade ou fama ou fazer amigos, como era normal na época (até no meio metaleiro, no qual eu meio que me inseria sem querer) ainda que isso tenha vindo, por vezes, até mim. Com o tempo ele foi andando até virar o blog.


Tenho quase certeza – e o pouco que me falta de certeza sobra de vontade de acreditar – que sempre se chamou ‘a sip of ether’.
Era um lugar onde eu vinha pra tirar coisas do peito. Não passava pra quase ninguém.
Nessa época já não escrevia mais histórias mirabolantes – ainda que clichês – com o mesmo gás de antes. Meu tato pra colocar uma palavra atrás da outra e fazer soar interessante definitivamente tinha melhorado, mas faltava-me certa faísca de inspiração. Ela foi se apagando com o tempo e não sei quando foi que começou.


Talvez já tenham reparado pelos últimos posts que estou entrando numa fase estranha de resgate. De querer trazer de volta umas coisas que eu era e misturar com outras coisas que sou.


Foi aí que comecei a pensar – e, confesso, penso demais -; hoje eu me considero indubitavelmente melhor escritor do que eu era quando tinha 16 anos, mas certamente eu não sou metade do contador de histórias.


Eu acreditava que aquilo era o melhor que eu podia fazer e por isso dava tudo que eu tinha pra fazer cada um dos projetos, e me encantava com eles. Ficava feliz e prosseguia. Olhava pra trás pra corrigir as falhas, mas prosseguia ainda assim. E cá entre nós, não era nada mal.
Hoje eu não sei.

segunda-feira, 12 de março de 2012

[madrugada]

[27 de Julho de 2010]


É madrugada
Tudo aquilo que é silêncio traz um arrepio
O ontem se pendura só por um fio
E o dia de amanhã ainda não me diz nada

É madrugada
Passou uma era e a outra se atrasa
O sol se escondeu sem deixar uma brasa
E faltam só algumas horas pra virada

É madrugada
E eu meio que espero não esperando
O pouco que resta me sufocando
Essa curva incompleta que vem na estrada

É madrugada



Poema-de-aniversário do ano de 2010. Acho que a palavra é "longing", que pra mim se traduz como uma esperança cansada.
Acho que não escrevi em 2011 porque ainda não tinha exatamente passado (e passou? e passa?).