segunda-feira, 18 de março de 2013

[tesoura sem ponta]


Não bata, não,
não espere que ceda.
A pele pode ser de seda
mas abaixa a pata, não bata.
De nada adianta.
Pode arder, mas não parte.
Não bata que fere.
Ouça. Não descarte.
Não grite nem se desespere,
só fecha -
a boca.
Que o silêncio impere.
Não grite. Não fale.
Não insista que pare -
não bata.
Não - interrompa.
Sem pirraça.
Faz silêncio.
Uma vez.

Dá cá a tesoura,
deixa eu te contar:
A culpa não é sua.
Mas é teu fardo.
Então abaixa a pata, e não bata,
que dói e pega mal.

Pro seu lado.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

[de estrelas (e pedra submersa) - parte 2]

[link para a parte 1]


se não chegar a nos perceber:
Não saberia dizer se as próximas semanas passaram velozes ou se arrastaram, mas quando se deu conta de sua posição eram onze e meia da noite e havia o barulho de algum cão vadio revirando latas de lixo. Terminava seu tormento semanal como máquina: insensibilizado, especializado, fechando a ultima das seções da coroa externa. Faltando espaço nas costas, o desenho invadia as costelas pelas laterais do corpo. A cicatrização era rápida e agressiva, o misto de pintura e entalhe caminhando debaixo da pele.
Terminou de preencher com a tinta estranha o ultimo glifo. Inspirou profunda e lentamente. Expirou a bruma pesada da angústia, sentindo seu braço fraquejar e seus olhos pesarem. Tonteou e voltou a si algumas vezes. Colocou a máquina sobre a mesa e apoiou a testa na lateral da maca, afastando o resto do corpo com o deslizar da cadeira.
Gregório já havia cogitado fechar o estúdio e arrumar um emprego decente diversas vezes. Pouco antes do amaldiçoado dia em que aquele homem cruzou a porta de vidro, chegou a colocar as contas na ponta do lápis para procurar outras possibilidades. Mas onde diabos iriam contratá-lo? Não alguém como ele.
Apesar da profissão, Gregório tinha poucas tatuagens. Se colocasse uma roupa chique sobraria pouco o que questionar de sua seriedade. Porém quando lhe perguntassem sobre sua experiência profissional diria “trabalhei como tatuador durante vinte e um anos, desde os dezessete” e quando perguntassem o que mais, diria “trabalhei como balconista da biblioteca municipal durante dois anos, dos quinze aos dezessete”.
Seriam camadas e camadas de falsidade entre dentes – nojo e pena revirando-se por dentro, deixando escapar apenas um sorriso sarcástico, coberto por um sorriso condescendente, coberto pelo melhor sorriso impenetrável tal qual um jogador de pôquer. Entraremos em contato. Tapa nas costas. Escolta à saída. Aperto de mão.
Depois nada.

Gregório acordou de madrugada quando, em sonho ou memória, escutou gritos afogados e o ranger de dentes. Suava. Sentou-se, o lençol empapado descolando de suas costas. Perguntou se fora ele a gritar durante o sono.
Cenas desatadas de um pesadelo recobriram seus olhos no breu do quarto. Sangue, aço, unhas, lodo, plástico. Um sombra sádica da cor da angústia, densa como noite líquida, invasiva e sufocante. Respirava mal. Abriu a janela.
A cidade dormia. Seu lado da cidade não tinha muitas opções a não ser o aconchego das camas quando chegava a noite. Ao longe, o halo de luz que recobria o centro competia com um céu nublado e cinzento, os prédios desregulando o horizonte em uma bocarra de dentes tortos.
Desceu as escadas se orientando com uma mão calejada na parede. Passou pelo corredor e entrou no banheiro, tateando pelo interruptor. Acendeu a luz, e foi ofuscado pela iluminação repentina, a vista entrecortada pelos borrões brancos. Aguardou um segundo, abriu o armário embutido no espelho e pensou ouvir um tinido estranho.
Encarou a si mesmo durante algum tempo. Suas olheiras estavam fundas, sua barba por fazer. Qualquer majestade que um dia tivera, qualquer juventude, parecia ter se esvaído.
Seu rosto, percebeu, não tinha cicatrizes. Não tinha cicatrizes gritantes, apesar de todas as brigas em bares, de todas as surras quando criança. Mas ainda assim, seu rosto exibia o tipo de marca suave, de erosão irreverente, que extinguia qualquer dúvida.
Ligou a água da pia e abaixou-se para as mãos cheias. Quando abriu os olhos viu algo através do gotejar das sobrancelhas. Uma familiar chave cor de cobre, esverdeada com o tempo, balançava na água corrente, presa no ralo.
Estendeu os dedos dormentes e pegou-a, examinando mais de perto.

A fechadura abriu-se com um clique, a porta com um ranger incômodo. Poeira e panos. As janelas estavam fechadas, as cortinas frustrando a luz vinda da rua. Um cheiro ocre levantava-se das tábuas do chão, manchadas de tinta.
Havia telas cobertas com panos que um dia foram brancos, esquecidas. Um cavalete grande sustentava uma tela parcialmente pintada de preto. Gregório sabia que se examinada com cuidado e sob a luz a tinta na realidade exibia um azul profundo. Sua mistura particular.
Tentou acender as luzes. Uma segunda, terceira vez. A lâmpada estava queimada.
Avançou para a tela no cavalete e tocou-a com a ponta do dedo, sentindo a textura do tecido e da tinta seca. Virou-se para o lado e puxou o pano que cobria uma das telas encostadas na parede. Olhou-a por um segundo.
Ficou impressionado com a paciência que tinha quando era mais novo. Cada estrela da composição parecia diferente da outra, e todas formavam sempre movimentos em ondas, perfeitamente discerníveis sob o fundo escuro.
Sabia que aquele tempo havia passado, junto com os livros de astronomia. Conformara-se com o fato de que não poderia ser um astronauta. Aproveitou-se de seu olho que deixava pouco escapar e de sua mão firme e decidiu criar o espaço ao invés de visitá-lo.
Da tela para a pele fora uma questão de necessidade e perspicácia. Então, uma década e meia atrás, deixou de cultivar aquela paciência de graça.
Dúvidas se instalaram aquela noite, mudas. Gregório saiu do quarto, trancou a porta barulhenta e subiu as escadas.
Colocou a chave em cima do criado-mudo e voltou a dormir.

O sino da porta tocou e o homem que entrou parecia ter tomado um bom café da manhã. O advogado se esforçava para andar com a postura correta, mas seus ombros ainda insistiam no desânimo. De uma forma ou de outra parecia, se não melhor, inspirado.
Tirou o paletó escuro amarrotado e pendurou num gancho na parede do estúdio enquanto Gregório preparava o material, apreensivo, uma garrafa de uísque barato com um rótulo vermelho gritava por atenção entre os materiais. Não precisou se virar para ver que o advogado sufocou um riso ao notá-la.
- Não vou beber.
- Talvez eu vá.
- Você não vai me tatuar bêbado.
- Talvez eu vá.
Silêncio.
- Já estou na ilegalidade usando essa tinta maluca. Não tente me recriminar por falta de profissionalismo.
Mais silêncio.
- É preciso muito mais que um copo de uísque pra me deixar bêbado.
O advogado levantou uma sobrancelha.
- Deixe a maldita garrafa aí. Não está nem aberta.
A sessão seguiu, o advogado ainda calado, ainda se contraindo, ainda suando. Os dentes ainda trincavam, mas a dor parecia mais suportável. Talvez ele simplesmente tivesse se acostumado.
Enquanto isso, o desenho seguia tomando o lugar da pele, indo e vindo. Ao seguir as linhas por vezes se sentia fazendo uma costura ao invés de uma tatuagem.
- Você ganhou cor. Está melhor daquela doença?
- Ela está terminando.
Fechou naquele dia mais duas divisões do círculo interno. Gregório se acostumava com a as formas e distâncias entre os ícones, precisando de cada vez menos consultas. Símbolos se repetiam e giravam, aumentavam e diminuíam, mas uma lógica cega era perceptível nas marcas estranhas.
Como a das estrelas.
Terminou mais rápido naquele dia, não sabia dizer se pela expertise ou pelo medo de passar novamente pelo que havia passado semanas atrás.
A coroa interna era menor, aliviou-se.

Quando vamos marcar a próxima? – perguntou Gregório, menos tenso do que antes.
Seu cliente demorou a responder, mas já estava ficando acostumado com os silêncios quase constrangedores. Esperou paciente que se sentasse, abotoasse a camisa em seu ritual.
O advogado levantou os olhos e examinou o desenho. Depois virou-se para Gregório, ainda demorando-se em escolher as palavras.
- Acho que você precisa, de uma pausa.
- Como é? – a resposta saiu tão prontamente que Gregório se surpreendeu consigo mesmo.
- Acho que precisa de uma pausa. Pra colocar a cabeça no lugar, respirar um pouco. – dizia, mas a Gregório parecia não prestar atenção.
- Uma pausa? – perguntou incrédulo, depois de alguns momentos de silêncio – Isso é sério?
- Gastar o dinheiro que lhe paguei. – respondeu com um sorriso leve e uma sobrancelha arqueada que fazia da sugestão uma pergunta.
- Não. – pausou.
O advogado olhava com a condescendência que se olha para uma criança. Como diabos ele esperava que Gregório aceitasse essa sugestão? Ainda que a dor parecesse ter diminuído, seu cliente ainda fincava as unhas no encosto, ainda suava e ainda ardia em febre.
- Não, de jeito nenhum. Demorei muito tempo pra me acostumar com a sua tara de sentir dor e agora você quer me dar tempo pra desacostumar? O cacete. Vamos marcar semana que vem.
- Olhe, eu entendo que queira acabar isso logo. Eu também quero. Imagino que tenha reparado enquanto eu trincava os dentes na sua maca. Mas não quero que seja desleixado por causa disso. – Gregório fez menção de interrompê-lo, mas seu cliente pausou antes que pudesse e ele reconsiderou.
– Sei o que você está pensando. Que é muito bom e que pode terminar esse trecho final em mais duas sessões mesmo que esteja com um braço quebrado e alcoolizado. Eu acredito em você. Mas preciso de algo que você não está em condições de dar: concentração. Você sabe tão bem quanto eu que está cansado. Então aqui está minha proposta: – gesticulou com as mãos – descanse pelo menos duas semanas. Quando sentir que está pronto, me ligue. Como também não tenho muito tempo, caso eu ache que está folgando demais vou te procurar. De acordo? – concluiu, estendendo sua mão como da primeira vez que se encontraram.
Gregório hesitou, sua boca abriu e fechou algumas vezes procurando o que dizer, mas ele sabia que seu cliente estava certo. Apertou sua mão e jurou que seria a ultima vez que entraria num acordo com aquele homem.

se eu te contar o que vejo, pode me dizer o que é verdade?:
No primeiro dia uma moça entrou no estúdio. Vestia roupas leves, sua saia e cabelo curtos realçavam seus quadrís. Gregório acompanhou enquanto ela se aproximava do balcão e olhava as fotografias nas paredes. Aguardou um cumprimento, mas desistiu.
- Boa tarde. – disse.
- Boa tarde. – respondeu, ainda imersa nos desenhos da parede. Virou-se para o balcão. – Eu quero tatuar meu pé. Estava pensando em estrelas.
Por um segundo, animou-se.
- Estrelas?
- Sim. Umas três.
Seu ânimou desinflou, ao perceber que, pela quantidade, não imaginavam mesmo tipo de estrelas. Aceitou o negócio e terminou em uma hora, um tanto triste.
Quando ela despediu-se, satisfeita, Gregório acompanhou sua caminhada até o final da rua acendendo um cigarro. Ao entrar de volta no estúdio o som do sino da porta lhe deu uma rápida vertigem.
As parades eram recobertas por vários trabalhos. Escorpiões, chamas e mulheres cobriam braços, flores e dragões populavam costas. Nesse mundo a pele se tornava cenário de batalhas, refúgio de fantasmas e demônios orientais, lar de criaturas fantásticas ou até memorial para coisas que alguém considerava importante.
Mas então Gregório percebeu que, depois de um tempo, não se lembrava mais das pessoas, não se deixava contagiar pela arte. Os pedidos se repetiam e o seu traço viciado já sabia como desenhar tudo aquilo de forma quase mecânica.
Fechou o estúdio mais cedo e não o abriu durante toda a semana.

A lua se escondia e o mundo noturno só se revelava para aqueles que esperavam que seus olhos se acostumassem. Gregório terminava um cigarro nos fundos de seu estúdio absorvendo o céu com os olhos. O cheiro da fumaça começou lhe incomodar e ele descartou seu cigarro.
Tirou o celular do bolso e desviou o olhar com a luz cegante do display.
Circulou pela agenda passando cegamente por diversos nomes – “Fênix César”, “Fênix Bianca”, “Fênix Rodrigo”, “Gaivotas Júlia”, os nomes eram de pouca importância e era difícil lembrar quem era quem – até encontrar o nome certo.
Discou. Aguardou alguns tons.
- Alô. – atendeu a voz baixa e familiar.
- Sou eu. – respirou fundo para limpar o cigarro da garganta – Está disponível amanhã?
O cliente demorou-se um pouco a pensar. Gregório observou a brasa do cigarro ganhar vida com a brisa e depois de um tempo apagou-a com a sola do sapato.
- Sim, vou estar. Duas horas é bom pra você? – perguntou.
- Ótimo.
Por vezes havia o som de carros passando, mas Gregório atentava ao céu noturno e pensava como havia ido parar naquela situação. Depois de mais de vinte anos de experiência, fazia tempo que não tinha a sensação de estar se preparando para algo.
- Gregório, procure descansar. Faça algo que gosta. Não estou te pagando bem a toa. Não quero que você esteja estressado quando estiver com uma agulha nas mãos. – disse, e Gregório refletiu se aquilo era um pedido ou conselho.
- Conselho aceito, Antoni. – respondeu. – Descanse você também.
- Boa noite.

Gregório jogou água no rosto e enxugou-se com a toalha.
Encarou o velho que via no espelho. Decidiu que tirar o bigode e a barba seria de alguma ajuda. Jogou os cigarros no lixo do banheiro e voltou ao quarto sentindo o vento sobre o rosto.
No criado mudo estava a chave cor de cobre.
Voltou-se para o corredor cheio de direção. A passos largos alcançou a porta do estúdio – seu antigo estúdio onde pintava, não o novo estúdio onde trabalhava.
Abriu a porta empurrando a pequena estante móvel com suas tintas, a máquina, o gerador e a garrafa que permanecia fechada e colocou-a perto da janela, abrindo espaço entre as telas. Decidiu pegar a maca no dia seguinte. Talvez a troca de ambiente o ajudasse também.
Gregório destrancou as janelas e puxou com alguma dificuldade. O vento levantou a poeira do quarto e balançou os panos. Impassível sobre o cavalete, uma das pinturas inacabadas pesava. Colocou a cadeira frente à janela e procurou o interruptor.
Depois de três cliques infrutíferos desistiu.
Estava cansado, era tarde e teria que acordar na manhã seguinte e se submeter a mais horas de sua tortura coletiva. Seu cliente iria sentir dor, apertar a maca e iria se ver livre dele.
Mas não iria se ver livre.
Abriu o uísque e serviu em um copo. Olhava pela janela e começava a se desprender do estúdio empoeirado. Tomou um gole e deixou seus olhos transitavam pelas estrelas e constelações - aries, touro, gêmeos, encontrou Castor e Pollux e pousou-se sobre o cinturão de Orion.
Parou por um segundo para considerar a ironia. Há muito tempo, com o pincel em mãos, talvez naquele mesmo lugar onde se sentava agora, a esperança de Gregório se cansou.
Sentou-se na cadeira. Ao longe a paisagem construída pelas luzes amareladas de janelas, postes e estradas era bonita, mas lhe faltava algo. Algo pervasivo, mas quase imperceptível ao olho nú. Algo que exigia crença e ar nos pulmões e que era mais fácil de enxergar quando o céu era certo. Quando se apagava as luzes e a noite era sem lua. Quando a humanidade parecia tola.
As luzes da cidade são apenas uma efígie das estrelas no céu.
Gregório entregou-se ao encosto da cadeira e ao sono.

e o que acontece com os garotos que se perdem em suas cabeças?:
Ainda estava em seu estúdio. Sabia.
Era tarde, mesmo sem relógio, e era escuro mesmo antes de abrir os olhos. A noite era silêncio e Gregório flutuava e se afogava. Não podia sentir os pés no chão, mas podia sentir seus pés procurando descalços um pouso. Rodopiava como em valsa e podia sentir o vento no rosto. Com passos confusos andava para o alto e para os lados sem saber onde pisaria até pisar.
Atrapalhou-se com o pé no mogno e quase tombou, mas para onde?
Os olhos estavam abertos agora e Gregório encontrou a janela de seu estúdio. Mas algo havia mudado, pensou enquanto as telas pendiam do teto, seus panos a volitar com o movimento das correntes do mar. E Gregório podia ver pela janela que o horizonte era infinito e a paisagem impossível enquanto afinava-se novamente em seu corpo.
Olhando para cima viu as estruturas de luz xadrez dos edifícios da cidade derretendo e se transformando. Estendeu a mão para tocá-las, mas elas se afastaram e voaram como elfos para longe. Deu um passo a frente, tomando cuidado para não tropeçar na moldura baixa da janela, mas perdeu seu chão ao pisar no céu e caiu, se segurando em um fio. Olhou para baixo, para a imensidão.
Então Gregório sentiu. Sentiu olhos e o fogo incandescente de Orion.
Viu-se criança, olhando para o cinturão e procurava Orion em volta, seus braços fortes e suas pernas ágeis, correndo para a caçada. Mas cansou-se e deixou que sua mente de criança lembrasse. Quando era pequeno encontrou o resto de Orion, mas não onde indicavam os livros que faziam com que sua cabeça virasse e virasse. Os livros inclementes que o faziam levantar do chão e rodar olhando o céu até ficar tonto e cair novamente.
Os três pontos eram os olhos. A estrela do centro era sua lanterna, brilhando com o fogo das estrelas. Não uma lanterna de pilhas, ou uma lamparina. Gregório sabia - decidiu. A estrela do meio era como o meio de nossos olhos, e lá ficava seu fogo.
Olhou Orion nos olhos, e sabia que ele olhava de volta. Ele já tinha visto aqueles olhos em outros sonhos. Perguntou-se o que ele via. O céu virou e virou novamente em volta de si mesmo e Gregório não caia mais do que afundava e flutuava enquanto se fitavam. O fogo cresceu e engoliu os dois enquanto a mão que segurava o fio puxava e Gregório se enrolava enquanto queimava suas mãos, suas costas, suas pernas, seu rosto e ele se desfazia em chama e linha. As estrelas sumiam uma a uma enquanto Orion e o homem encaravam-se como rivais, como velhos amigos, como pai e filho e pai e nem um nem outro tinha nada mais do que os olhos e o fogo que queimava e ardia nos sonhos.
Gregório soube que era pedra, e que o céu era mar e que seu destino era afundar-se nele e deixar que a corrente o levasse pela via láctea enquanto se entregou e os olhos se fecharam e restou só o fogo e a noite.

Acordou em brasa no chão do estúdio, o laranja da alvorada devassando as telas e os panos espalhados. Gregório sentiu cheiro de ferro e quando abriu os olhos viu o chão e sua camisa jogada na vertical. Levantou-se do chão e sentiu um fio enrolar-se em seu braço. A máquina pendia presa em seu braço. Suas costas ardiam e o chão era tinta preta e sangue.
Uma única tela permanecia em pé no estúdio – agora terminada e preenchida com a lógica cega das estrelas.
Gregório foi até o banheiro sentindo arder suas costas. Abriu a torneira e lavou o rosto com água fria. Virou-se de costas para o espelho e viu. As estrelas não preenchidas sobre a tinta preta quase brilhavam. Perguntas surgiram ininterruptas em sua mente, mas calou-as ao encarar a si mesmo no espelho e lembrar vagamente de seu sonho já meio esquecido.
Antoni chegaria em breve.

de estrelas:
Quando o sino da porta tocou Gregório não se deu ao trabalho de levantar os olhos da folha na qual rabiscava em cima do balcão. A placa, virada para dentro, dizia “Aberto”.
- Você parece cansado. – disse Antoni.
- Cale a boca. – respondeu Gregório cumprimentando-o com um aperto de mãos. Segurou com força por um segundo encarando-o nos olhos. – Você sabia que algo ia acontecer não? – perguntou, e Antoni não respondeu, mas Gregório sabia. Viu a resposta em seu rosto. - Suba. Vou te tatuar lá em cima hoje. – disse andando até a porta e passando o trinco.

O sol atingiu seu pico e voltou a se esconder, o dia dando lugar à noite e à meia-noite, mas independente das interjeições de dor de Antoni, Gregório continuou em transe e foco até que terminasse. O centro era único, um desenho grande, mas o costume fez com que fosse concluído rápido.
Abaixou o braço cansado e afastou-se anestesiado.
O desenho era complexo e emaranhado. Os traços se alternavam, hora formando curvas orgânicas, hora formas geométricas. Motivos se repetiam como letras de algum alfabeto desconhecido e acompanhavam a simetria ilusória do quadro. A obra seguia uma estranha hierarquia, com os elementos se agrupando em falso acaso, com cada parte se ligando à próxima por interseções quase imperceptíveis. Todas elas circulavam e convergiam para o centro, onde havia um símbolo que ele classificou como uma mistura entre uma flor de lótus e a cabeça de uma cobra.
Antoni ficou em silêncio durante alguns longos minutos enquanto Gregório limpava o material. Respirava fundo, mas não parecia mais tão pálido ou frágil e a tinta não parecia mais pesar e queimar - não mais que o normal, ao menos.
Gregório andou até a janela tirando as luvas e jogando-as no lixo. A noite ainda era sem lua.
Depois de fazer o curativo, levou Antoni até a porta.
- E agora? – perguntou Gregório. Sentia um pequeno vazio em algum lugar.
- Agora tenho um lugar importante para ir... – respondeu.
- E esse sacrifício é todo por esse lugar? – perguntou, mas não esperou resposta. – Deve ter algo muito importante pra você lá.
- Sim.
Os dois permaneceram em silêncio por um tempo. Antoni tateou os bolsos.
- O resto do pagamento. Não gaste tudo de uma vez. – disse, entregando um envelope amassado a Gregório. Alguns carros passavam pela rua, mas era tarde e a maior parte da cidade já dormia.
- É só isso? Você não vai me falar nada sobre o que aconteceu? – perguntou Gregório. Tinha perguntas e esperava que Antoni tivesse algumas respostas.
- O que aconteceu? – perguntou.
- Eu vi as estrelas nos meus sonhos e elas falaram comigo em seus olhos. E eu afundei e voei e elas me deram o fogo. Eu acordei no chão do meu estúdio com uma tela pintada e tinta nas costas e eu não faço idéia de como isso aconteceu. – respondeu.
- Não tenho nada pra te dizer que você já não saiba. - e Gregório sabia que era verdade.
O que quer que se seguisse, não seria mais o mesmo de antes e ainda podia ser sentido no ar o peso das perguntas não respondidas e enigmas não solucionados. Aquele cliente tinha sido diferente de todos. Não por afinidade ou pela arte, mas por outros motivos.
O silêncio se instalou novamente e os dois olharam para o céu aproveitando a brisa da noite e se demorando na despedida.
- Não dá pra ver isso do centro. – disse Antoni.
- Não mesmo. – respondeu Gregório.
Suas perguntas desapareceram e o céu era, num primeiro olhar, preto e impenetrável. Mas para o olho treinado e para o coração desperto, Gregório sabia, que quando observado com cuidado, na luz certa – não as luzes da cidade – o céu negro não era negro.
Era só meia-noite e azul, a cor secreta que só se revela pra quem acredita e sonha como sonharam Van Gogh e Saint-Exupéry. Sua cor preferida.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

[insônia e retrospectiva]



Demorou a emergir do turbilhão que anda a minha cabeça algo de valor, nesse profético ano de 2012, que pudesse servir de pedra fundamental sobre a qual eu construiria minha retrospectiva. Acho que foi difícil porque o ano de 2012 foi um ano abrasivo que fez de tudo pra me tantalizar (“the closer I get, the further I am...”).
Mas eu seria um mentiroso se dissesse que em 2012 não aprendi nada. E - que o universo continue a conspirar - o ano que eu não aprender nada é um ano em que estarei morto!
Foi um ano de tentativa e erro e tentativa e erro e tentativa e ... bem, má sorte também. Má sorte e uma sensação permanente de esforço inútil, de desânimo, de cansaço. Mas nunca é inútil. Conquistei muitas coisas, reconquistei muitas coisas e estou no meu caminho.

(E foi um ano produtivo pro blog, que mesmo comigo reclamando bicas que estou escrevendo pouco, saí bastante da caverna.)

Há quem me fale em plantar sementes e cuidar pra que elas cresçam - mas a maioria se esquece que também é importante (e cansativo) cavar, e que a recompensa disso não é escancarada e imediata.

Me recordo que em 2009 – ano sujo, ano de facas – eu fechei com um aprendizado simples, mas significativo: resistência. A segurança de que eu sou capaz de aguentar muita porrada. Mas me esqueci que não adianta ser como a pedra, porque a água fura – e há o que fure pessoas.

Se me salta alguma palavra para 2012, essa seria persistência. Não desistir e continuar remando, não importa o que estiver na frente. (“Spiral out. Keep going.”)

Agradeço, do fundo do meu coração, aqueles que me ajudaram. Quando digo ajuda, digo no sentido mais amplo possível. Uma conversa, uma novidade, um pouco de atenção – sim, foi um ano solitário e carente, em parte por culpa minha, e eu não tenho vergonha disso (só um pouquinho).

Beijos e abraços - vocês podem escolher qual dos dois (ou ambos), fiquem à vontade - e um felicíssimo ano novo pra todos.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

[giveaway - natal, ano novo e superstições]

Querido Leitor,
Cortando um pouco a falação egótica usual, venho com uma proposta.
O Natal se aproxima, e eu - assumidamente um animal de símbolos, com uma rebarba significativa de superstição - assumi meus rituais pré-réveil.

Na ânsia de fazer voltar a fluir essa energia estagnada coloquei-me a arrumar as bagunças do meu quarto e revirei meus armários em busca de coisas para me desfazer.
Me deparei com um surto de espírito natalino e - ao invés de jogar tudo fora, como costumo fazer - decidi dividir com o mundo os prazeres (e alguns desprazeres) da minha leitura.

Encontro-me com uma pequena pilha de livros e HQs para me desfazer, e gostaria de saber se algum de vocês está interessado. Segue a lista:


  • O Retrato de Dorian Grey - Oscar Wilde
  • Paraíso Perdido - John Milton
  • Divina Comédia - Dante Alighieri
  • Para Além do Bem e do Mal - Friedrich Nietzsche
  • Viagem ao Centro da Terra - Júlio Verne
  • Tales of Mystery and Imagination - Edgar Allan Poe
  • The Strain - Guillermo Del Toro & Chuck Hogan
  • A Maldição de Sarnath (Coletânea de Contos) - H.P. Lovecraft
  • O Silêncio dos Inocentes - Thomas Harris
  • Anno Dracula - Kim Newman
  • Comédias Para se Ler na Escola - Luis Fernando Veríssimo
  • Novelização Oficial: Titã A.E. - Seteve e Dal Perry
  • Holy Avenger Volume III: Partes 17 a 24
  • Holy Avenger Volume VI: Especiais 1 a 4
  • GURPS - Módulo Básico
  • Maya Character Modeling & Animation: Principles and Practices - Tereza Flaxman
  • Blender 3D: Guia do Usuário - Allan Brito
  • Design de Games: Uma abordagem prática - Paul Schuytema
Caso se interesse, pode entrar em contato comigo através do e-mail (dsg.ximenes@gmail.com), ou facebook (http://www.facebook.com/dsg.ximenes). Peço encarecidamente que adicione [LIVROS] antes do título no assunto, pra que eu possa me organizar melhor. Combinados?

Feliz Natal e um ótimo ano novo :)
D. Ximenes

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

[de estrelas (e pedra submersa) - parte 1]


do som ao silêncio:
- Então... me diga, em que ramo milagroso você trabalha? – tentou quebrar o silêncio desconfortável. O cliente hesitou por ainda mais alguns segundos, e ele refletiu se este era do tipo que gostava de sentir a dor.
- Sou advogado. – respondeu, por fim, um pouco desconfortável com as perfurações iniciais.
- Vão te deixar entrar em um tribunal com uma tattoo desse tamanho?
- Eu sou do tipo que passa o dia no escritório. – deu uma risada rouca, suas costas pálidas se movendo. Ele quase podia ver as costelas se separando conforme o ar entrava e saia rapidamente de seus pulmões.

Alguns dias antes os sinos da porta haviam tocado, fazendo com que ele parasse de olhar para suas anotações tediosamente, depois de muitos dias. Havia entrado no estúdio usando um terno e carregando uma maleta – direto do trabalho, assumiu.
- Ouvi dizer que você é o melhor. – o homem disse, esboçando um sorriso cansado e olhando para a loja vazia, analisando as fotos empoeiradas espalhadas pelas paredes – Acho que estavam certos.
Seus olhos eram enquadrados por olheiras escuras e fundas, e quase não se percebia que eram de um azul arranhando o turquesa. Julgando por seu cabelo e barba, ele não visitava um barbeiro havia pelo menos um mês.
- Segundo melhor. – deu de ombros – O melhor – disse, deixando o sarcasmo transparecer - mora do outro lado da cidade e trabalha numa galeria que é encerada todos os dias.
- Também ouvi dizer que você faz de tudo. – insinuou, se aproximando da bancada e apoiando sua maleta de couro, arranhada e fosca com o uso.
Ele franziu o cenho e virou de costas, andando para os fundos da loja.
- Se é isso que você ouviu, amigo, garanto que estão enganados. – gesticulou para que o homem saísse – Não volte mais aqui. Não vou infringir a minha ética só porque um riquinho ouviu falar que sou um garoto de programa.
- Não me expressei bem. – se apressou o homem de terno – Por favor, espere.
Ele se virou, ainda com uma carranca e hesitou antes de caminhar de volta até a bancada. Se deslocando devagar, esperou para ouvir o resto da conversa fiada.
- Tenho um pedido especial. – Abriu a mala e tirou de dentro uma pasta, que ele apoiou sobre a tampa. Desprendeu os elásticos e tirou do interior uma folha dobrada. Segurou as pontas com muito cuidado, e desdobrou-a.
- Quero que tatue isso nas minhas costas. – o cliente disse, demostrando uma resolução inesperada, e por um segundo ele pode jurar que um brilho intenso havia passado por trás do negrume de suas pupilas.
Olhou a vítima de cima abaixo, os olhos carregados de julgamento, pensando a respeito. Tinha os cabelos escuros e volumosos, mas ressecados. Era jovem, mas a testa denunciava linhas fundas marcando a fronte. Os ombros inclinados para frente pesavam. Percebeu as pernas fracas, que deixavam as calças pendularem esbarrando os tornozelos.
- Isso não vai sair barato... – atacou, pensando como comerciante ­- e vai demorar. Ainda por cima se tratando de um “pedido especial”. – constatou, analisando as linhas do desenho.
- Sou um homem generoso. – respondeu espirituoso, estendendo o papel e deixando seu braço ceder sobre a bancada. Seus olhos acompanharam a leve suspensão da folha pelo ar antes dela se acomodar sobre a superfície.
- Perfeitamente. – inspirou profundamente, pausou por um segundo e continuou – e qual é o esquema? – perguntou desconfiado, depois de recobrar a compostura. – Você mencionou o fato de “eu fazer tudo”. Qual é a jogada?
Algo não se encaixava, e ele tinha um nariz treinado para transgressores e bandidos, mas estava curioso. Não era todo dia que alguém cheirando bem entrava na loja com um pedido grande em mãos. As pessoas tinham medo de sair do aconchego de seus lares para se aventurar pelo subúrbio, muito menos se tinham opções similares perto de casa.
Mesmo assim, lá estava ele, sua aparência traumatizada como um veterano de guerra, em roupas sociais e com um relógio caro.
- Em primeiro lugar, vou precisar te orientar. Esse desenho requer precisão e...
- Não preciso de orientação. – interrompeu, irritado. O cliente apenas o encarou esperando permissão para terminar. – Me desculpe. Continue.
- Precisão e razões matemáticas fixas. – completou.
Razões matemáticas? Parecia uma piada, enquanto ele olhava a folha preenchida com desenhos espalhados a esmo. Não analisou muito a fundo.
- Vou precisar de compassos e esquadros? – mostrou os dentes amarelados.
- Talvez. Tudo depende, mas pelo que pesquisei você tem as mãos firmes e é detalhista. Desde que eu lhe ensine a regra básica, você vai conseguir se virar. – gesticulou para os desenhos das paredes. – Eu confio em você.
Um segundo de estranhamento ocupou a sala, mas ele foi logo quebrado pela descrença e pressa.
- Até aí tudo bem. Qual é o segundo lugar? – Ainda não vira nada ilegal.
- Eu vou trazer a tinta que você deve usar. – levantou os olhos do papel e encarou o tatuador – Ela não pode ser misturada com mais nenhuma.
Houve silêncio, o terno estendeu a mão direita, seus dedos finos como um contrato, esperando apenas uma assinatura.

Preço dado, ele aceitara, e agora trocavam casos engraçados por cima do motor barulhento. A pele esticada do advogado parecia que ia ceder a qualquer momento sob as investidas velozes das agulhas.
- Se você soubesse o número de casos que consumidores ganham ficaria assustado. – Havia se acostumado com a breve ardência das agulhas alguns minutos antes e já conseguia conversar. – Algumas pessoas montam uma pequena fortuna só com esses casos bobos. Direito civil não é nada comparado com os casos bizarros que passam na mão do pessoal de direitos do consumidor.
- Eu imagino. Tenho vontade de processar minha operadora de telefone todos os dias. – riu, condescendente.
- Uma senhora de sessenta anos um dia resolveu medir a quantidade de refrigerante que tinha vindo na garrafa dela, sabe deus por quê. Ela descobriu que ao invés de dois litros, tinha um litro e noventa e oito. Ganhou um processo e ainda forçou a companhia a trocar toda a aparelhagem pra se certificar que não acontecesse de novo. Fora os danos morais.
- Trabalhar com clientes é difícil, eu vou te contar. – resmungou – Alguns chegam a dar raiva. Mas eu juro que enforco se algum cliente meu disser que é operador de telemarketing.
- Telefonia bate recorde no número de processos por lá. – adicionou.
Ele sangrava pouco e suas veias faziam contornos azuis debaixo de sua pele. O tatuador forçou os olhos lembrando-se de algo, enquanto ajeitava o fio da máquina por baixo da perna.
- Um tatuador argentino uma vez perdeu um processo.
- Por quê? – levantou o queixo do apoio, virando levemente a cabeça.
- O sujeito não foi com a cara do cliente. Discutiram muito, mas o cara resolveu tatuar mesmo assim. Afinal, ele era o melhor da cidade.
- Como o seu colega da galeria encerada? – perguntou o advogado, ironicamente.
- Exatamente. – riu.
A orientação era que ele começasse marcando o diâmetro de cada círculo concêntrico – isso tudo ainda usando a própria tinta. Ele demorou a tarde toda, traçando as linhas básicas com um preto aguado, sempre prestando atenção para não errar as medidas precisas que o cliente exigiu que ele aplicasse, o que era incômodo – mas ele era um perfeccionista.
- O que aconteceu foi que depois de uma sessão de seis horas silenciosas e doloridas; já que o safado tinha a mão pesada; o homem foi se olhar no espelho.
- E aí?
- Bom, eu me esqueci de mencionar que o tatuador era uma borboleta. O cliente terminou com um caralho do tamanho de uma raquete de tênis tatuado nas costas. – concluiu, levantando a agulha para não fazer nenhuma besteira nos contornos enquanto ria.
- Ai... rir dói. – lacrimejava de dor e gargalhadas ao mesmo tempo – Minhas costas estão ardendo. Espero que você não esteja tatuando um pinto em mim também. – provocou.
- Pode apostar, amigo. Cartesianamente.

A primeira sessão foi demorada, mas marcaram a segunda com o intervalo de apenas uma semana. O advogado estava lá novamente, mais abatido e com os olhos ainda mais fundos, carregando sua maleta.
O homem aguentava cada segundo, mesmo com o corpo frágil que tinha. Ele ficou surpreso com a resistência. Pensou se não seria masoquista, mas seus olhos traduziam algo diferente de prazer.
- Deve ser realmente irritante trabalhar com essa história de divórcio todos os dias. Você usa um anel, não é casado? – observou o laço prateado que envolvia o dedo anular do cliente.
- Não. – respondeu, sem se prolongar. A dor pelo estresse constante das camadas superficiais da pele começava a tomar espaço, fazendo as frases mais curtas e os segundos mais longos.
- Não sente falta? Um homem deveria ter filhos, pra continuar seu legado, ou é o que dizem por aí... – tentou parecer inteligente. Ele puxou um pouco mais de tinta com a ponta da máquina.
- Você tem filhos? – reverteu, mas franziu a testa e trincou os dentes por um segundo entre as palavras.
- Não. – respondeu, voltando a injetar a tinta sob a pele do cliente – Meu estilo de vida não me dá segurança o suficiente pra tentar algo assim. – continuou, quase na metade do volume.
- Então você me entende.
Ele pôde ver suas bochechas se contraindo num sorriso leve.

Na semana seguinte continuaram de onde tinham parado, subdividindo as coroas em áreas menores, o que era consideravelmente mais simples, ainda que trabalhoso. Nada se compararia com a precisão cirúrgica que as coroas circulares haviam exigido nas sessões anteriores.
- Você não troca de roupa? – perguntou o tatuador. O advogado riu, sua mão frouxa na alça da valise que parecia flutuar.
- Prefere homens com roupas casuais?
- Que seja. Só não venha fedendo pra cá. Tenho que ficar sentindo seu cheiro a tarde toda. – deu de ombros.
Sentaram-se e ele continuou a esquematizar, linha por linha. Cada novo traço pedia uma nova consulta na referência que o cliente havia trazido, agora cheia de anotações e rabiscos em caneta azul, mostrando medidas e hierarquias. A forma geral da tatuagem começava a se deixar notar, mas ainda timidamente, quase se camuflando junto às veias aparentes.
- Você já tinha essa ideia desde pequeno? Ser tatuador?
- Quando eu era pequeno queria ser astronauta. Meu pai não gostava nada da idéia. Dizia que no máximo eu ia me juntar aos chimpanzés na galeria de animais que foram atirados no espaço. Na verdade ele não acreditava que o homem tinha pisado na lua. Quando comecei a estudar astronomia ele me deu uma surra e jogou os livros que eu tinha alugado fora. – fez uma pausa para conferir a referência – Depois outra pela multa da biblioteca. – concluiu, com uma risada seca.
- Que história triste.
- Sério, não precisa ter pena. O velho já morreu faz tempo.
- Mas você ainda está aqui, não está?
A pergunta pendurou-se no ar, esperando por uma resposta que não veio. Suas entranhas fizeram um movimento familiar, mas incômodo. Engoliu seco. Fez questão de pesar um pouquinho mais a mão nos traços depois dela.
Naquela noite ele sonhou com lâmpadas amarelas, sarjetas e sandálias.

Seus cabelos estavam começando a ficar grisalhos, e as entradas não o abandonavam nunca. Tinha manchas amareladas nos dedos e parecia ser muito mais velho do que realmente era.
Olhou no fundo dos olhos cor de mel refletidos no espelho e prometeu que ficaria de bico fechado durante a sessão. Aquele homem fraco e cansado falava coisas estranhas que o jogavam para cantos escuros que ele não gostava de visitar em sua mente. Ele conseguia ler cada pensamento desagradável de Gregório, até mesmo aqueles que ele deixava escapar nos momentos fugazes em que os afugentava como fantasmas de uma vida passada.
Ou então, ele estava finalmente ficando maluco.
Ouviu o sino da porta tocar, lavou o rosto e caminhou para atender.

há um abismo entre o que você vê e o que deveria estar vendo:
- Eu trouxe a tinta. – disse o cliente, carregando uma sacola de supermercado.
Ele estava tão abatido que Gregório notou o volume dentro da sacola antes das suas olheiras fundas. Parou por um segundo analisando seu rosto antes de falar qualquer coisa.
- Comprou agora ali na panificação? – tentou distrair-se das covas fundas que marcavam suas bochechas. Ele não respondeu.
Seguiu sua marcha trôpega para dentro do estúdio, colocou a sacola sobre uma pequena mesa de canto e se jogou na maca, de bruços, fazendo um estalo abafado, seu rosto na direção da parede. Levantou o braço magro e fez sinal para que Gregório viesse logo, sua respiração lenta e pesada.
Parou, apoiando-se com a mão no arco da porta, refletindo. Olhou para a carcaça em seu estúdio, voltou-se para o saco plástico - a semelhança era perturbadora.
Olhou o conteúdo: oito vidros diferentes – alguns com aparência de remédios, outros de corante e um que parecia um pequeno pote de tinta guache – cheios com tinta preta. Pegou-a pela alça e carregou até perto de suas máquinas. Começou a preparar o material, em silêncio.
Ligou a fonte e absorveu a tinta com as agulhas. Testou o motor. Parou.
- Tem certeza disso? Não é qualquer coisa que vai ficar na sua pele, sem contar que você pode ter uma alergia séria.
- Eu sei. – suas palavras compostas de súplica e comando – Vá em frente.
Não ousou questionar.
Olhou para a primeira sessão, que começava no topo à esquerda, invadindo parte do ombro e do pescoço. Olhou para a referência, procurou a primeira forma, ligou a máquina e levou a agulha à pele.
A sessão foi difícil. Teve mais cuidado do que nunca antes, como se o corpo do advogado fosse rasgar como uma folha de papel. Respirava fundo e percebeu que não era o único.
Era tão pouco sangue que quase se esquecia de limpar. A nova tinta trouxe uma nova dor. O cliente trincava os dentes, suava frio, tremia às vezes.
Cada pequeno símbolo marcado na pele adicionava uma nova camada de febre. Ele fez uma pausa, sem que o homem pedisse.
- Não pare. – sua voz era um sopro.
- Tem certeza?
- Não pare até terminar essa parte.
- Não posso te anestesiar, mas tenho um pouco de vodka.
- Não.
- Você é masoquista? – não se conformou.
- Não. – inspirou. Expirou: - Continue.
Gregório obedeceu. Suas pernas bambas de nervosismo, seus braços firmes de perfeccionismo. Sentiu-se sádico, imundo. Aquela sessão tornou-se uma tortura particular. Mas não podia parar.
Ele sentiu pena, raiva. O temeu, invejou e admirou. Cada emoção ardia, mas ele não ousou parar.
O tempo se arrastou, mas a sessão teve seu fim. Gregório fez o curativo. O advogado parecia dormir, olhos fechados, a respiração pesada. Era meia noite - dez horas seguidas em baixo da agulha. A barriga de Gregório roncou.
- Está com fome?
A resposta demorou.
- Sim.
- Não tenho nada aqui, mas podemos sair até a esquina.
- Ótimo. Me dê um minuto.
Gregório organizou seu material. Retirou as luvas, a máscara, dobrou-as com cuidado, jogou-as na lixeira. Retirou o saco de lixo, fez um laço e foi até os fundos desfazer-se. Perguntou-se por um segundo se aquilo poderia ser considerado lixo cirúrgico. Acendeu um cigarro. Teve dificuldade – suas mãos tremiam. Estava aéreo.
Quando voltou o advogado estava sentado na maca, sua respiração ainda pesada, abotoando a camisa. Dobrou a manga expondo os braços finos.
Andaram para fora da loja, Gregório apagando as luzes no percurso. Trancou a porta. Começaram a caminhar.
- Conheço um hambúrguer que fica aberto até as três.
- Não posso comer carne.
Gregório ficou frustrado, depois fez a pergunta que estava evitando havia dias.
- Está doente?
- Pode-se dizer que sim.
A segunda pergunta - engasgou antes que falasse e decidiu tragá-la junto à fumaça do cigarro.
- Tem uma lanchonete aberta, mas fica um pouco mais longe. Devem vender algo sem carne.
- Perfeito.
Caminharam em silêncio por algumas quadras. Comeram sem conversar. O advogado agradeceu, se despediram e seguiram caminhos opostos.
Gregório sentiu o peso do mundo sair de suas costas. Mirou o céu.
O cinturão brilhava como pérolas no fundo de um lago escuro.

Tinha a respiração curta e acelerada, suava como se ardesse em um braseiro. De quando em quando fincava os dedos no pano da maca – Gregório não ousava pedir que ele não estragasse o forro.
A dor parecia ter piorado. Seu cliente também – as feridas da tinta estavam inchadas e vermelhas além do ponto de entrada. O corpo parecia tentar expulsar o invasor, reagindo com alergias, dores, inchaços, ou talvez a tinta, por ironia, como uma praga, espalhasse aquela marca de fogo e febre.
Gregório reparou nos curativos dos dedos, na expressão torturada, nos dentes brigando por espaço na mordida violenta. Não sabia mais o que eram lágrimas e o que era suor. Nunca havia passado por nada igual.
Depois de três espasmos, Gregório parou de procurar motivos para continuar. Tirou o pé do pedal. Jogou os braços para trás e recuou para o encosto. Não foi sua intenção, mas o tamanho da repulsa fez com que as rodinhas da cadeira a movessem para trás, parando vagarosamente.
Alguns segundos se passaram dentro de sua cabeça em total silêncio.
- O que está fazendo? – perguntou o advogado.
- Não posso continuar. Volte daqui a uma semana, quando tiver se recuperado. – disse entre suspiros.
- Não. Continue.
- Você está passando mal, ardendo em febre, já ralou os dedos de tanto fincar as unhas na minha maca. Descanse um pouco, se vista e vá pra casa.
- Não importa. Continue. – tentou aumentar o tom, mas teve a fala cortada por uma expiração involuntária.
- Se eu continuar você vai desmaiar. – disse. Respirou fundo, tirou uma luva e levou a mão à fronte. – Não acredito que estou tentando argumentar. Não existe nada mais óbvio para mim e para você: não dá pra continuar.
Apertou os olhos com as pontas dos dedos, relaxando o rosto e voltou a olhar o cliente.
Estava sentado na maca, as mãos agarradas no assento. O rosto fino e pálido, os olhos azuis apontados como armas.
- Volte e continue. – ganhou força quando se sentou. Gregório pausou antes de responder e pode ver que algo havia mudado. O ar estava pesado o estúdio parecia encolher.
- Não. Você é maluco. Vá pra casa. – sua voz tremia.
- Eu estou te pagando adiantado. Você concordou com os termos quando eu apareci aqui pela primeira vez. – apelou para o orgulho profissional.
- Não importa. Você não disse que a sua tinta levava veneno de vespa ou sei lá o que diabos. Nem quero saber.
- Você apertou minha mão. – não piscava.
- E você apertou a minha. Devia ter repensado quais detalhes do seu serviço especial você ia revelar antes de fechar negócio.
- É seu dever continuar. – retesava as pernas, seus pés se dobrando para cima e para baixo, empoleirado, num movimento maníaco.
- Você é um tarado e está me dando medo. Vá pra casa e reze para eu decidir que vou continuar a tatuagem da próxima vez que você vier.
A gárgula se levantou e alcançou o tatuador em dois passos, restringindo seus ombros com as palmas escorregadias. Gregório deu um pulo curto, o peso do homem impedindo que se movesse. Seus olhos, globos de luz turquesa, engolindo tudo ao redor em uma afronta perfurante.
- Medo? – perguntou, um riso engasgado subindo-lhe a garganta arranhada. Gregório segurava a cadeira com uma das mãos. Os dedos da outra se moviam velozes pela palma escorregadia. – Você acha que entende algo de medo? Acha que apanhar do seu pai era ruim? Acha que isso é algum tipo de piada? Que eu tenho cara de quem gosta de pagar pra sentir dor e sangrar?
Agachou-se sem afrouxar as mãos restritivas e inclinou a cabeça como uma ave psicótica.
- Pense de novo. – sua face avançou um centímetro. Gotas de sangue escorriam pelas suas costas e caiam no chão com o súbito aumento de pressão. – Você apertou minha mão. Isso não foi só um acordo verbal. Foi uma troca de confiança. Caso contrário eu não teria nem começado a me tatuar com você. – soltou as garras dos ombros de Gregório. As safiras mudaram de expressão. Seu rosto se contraiu numa mascara de desesperança e morte. – Por favor.  – seus joelhos tremeram e ele se apoiou com as mãos. – Por favor, continue.
Gregório saiu de seu transe, a adrenalina ainda alterando sua audição, nublando os sons mais graves. Seus ouvidos zuniram num tom característico – o de perder uma freqüência auditiva depois de ser golpeado com força na lateral da cabeça. Lembrou-se de seu pai e levou a mão esquerda ao rosto. Sobrevivera.
Tomou ciência da figura ainda agachada em sua frente, soluçando. Teve uma percepção perturbadora. Ele não sobreviveria – os dedos de sua mão direita se encontraram vagarosamente em um punho sólido, sua testa franziu. Num vulto, os nós de seus dedos encontraram o maxilar de seu cliente num estalo surdo e ele caiu no chão de bruços, a boca sangrando – ele não sobreviveria. Não sem o seu trabalho.
Respirou fundo. Levantou-se.
- Volte para a maca se ainda conseguir. 

[link para a parte 2]

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

[excerto de um tomo encontrado nos aposentos de andrik sardu]


Existe uma crença falha que é largamente difundida por puro descuido em toda academia de magia em que tive o prazer (e em algumas o desprazer) de colocar os pés.
Adereço-me neste momento a você, leitor, confidenciando que nunca me esforcei para negá-la abertamente em nenhum de meus trabalhos acadêmicos mais difundidos. Seria, para mim, um desserviço imenso, além de um grande inconveniente, se chegasse porventura aos ouvidos errados.
 Peço, portanto, perdão pela minha digressão, mas esclareço-a: o direito de ler este tomo restringe-se só e somente só à minha pessoa.
Caso já tenha cometido o erro de começar, saiba que meus aposentos estão sob o efeito de barreiras mágicas, dentre elas – mas não somente - a Clave Regia, o Claustro de Thalmud e o Labirinto Dedálico.
Aproveite, portanto, seu tempo.

A crença se trata de um dado memético repetido desde, suponho, a Idade Média:
Humanos não possuem talentos mágicos inatos.

Além de minha crença no poder inato ao ser humano ser antiga, e advinda de uma série de casos isolados que tratei ao longo dos anos no Hospital, um caso em particular reforçou minhas pesquisas
No século XVIII fui compelido a fazer uma visita a um pequeno vilarejo a duas horas do Condado de Gloucestershire na Inglaterra, onde haviam sido encontradas no espaço de dois anos três vítimas de Esquizofrenia por Hipersensibilidade Sensorial, um caso grave de Thelemania (perda do controle sobre os próprios poderes) que custou à vítima toda a sua família e sua criação de gado – todos assolados por uma nevasca totalmente fora de época, que além de ter congelado os bovinos mais próximos à sua residência, queimou o terreno por milhas e fez com que os demais morressem de fome e frio – e, descoberto depois de alguma pesquisa, seis combustões espontâneas, além de um sem número de desaparecimentos ao longo das décadas. Neste lugar, com a ajuda de um estudioso da metodologia de busca do baculus divinatorius, fui capaz de encontrar uma confluência de linhas telúricas.
Estas apresentavam, localmente, toda a coerência de linhas telúricas naturais. Porém, não me contentei. Consegui acesso ao acervo pessoal do Visconde, que se provou ser muito solícito. Nele encontrei um volume do século XIV – assinado por um E. Vyzart, cujo brasão tomei nota para futura pesquisa -, que retratava todo o mapa telúrico da região. Enviei meu assistente, Beric, à biblioteca nacional em busca de outros manuscrítos que pudessem confirmar que esse documento era preciso, enquanto comparava a diferença das linhas.

Recorri aos meus humildes conhecimentos da Linha do Sepulcro e fui muito bem sucedido ao descobrir um espírito atado a um abeto no local.
Transcrevo, agora, as palavras que ouvi ao forçar uma conexão com o eco:

“Os que se afastaram do abraço da vida, que agora temem as vias misteriosas do universo, nos acusam de assassinas, idólatras e indignas. Sua ignorância e negligência alcançam agora nossa paz, e a despedaça com garras de horror e repulsa.
Derramando óleo no fogo, deixando que nossa carne evapore, podemos ouvir em suas vozes ensandecidas que irão abrir a represa, e deixar que a água leve nossos lares. Deixem que gritem seu mantra fulgurante com a confiança dos tolos, pois seremos nós as libertas!
Deixem que nos rebaixem a párias até que nossos corpos sem vida se partam. Caso realmente aconteça, estará cumprido nosso dever. Ficará apenas a amarga bruma da profecia imposta.
Quando o sétimo filho do sétimo filho nascer ele trará com ele uma nova alvorada.”

A cena  pré-datava o conhecimento mágico formal de hoje, que é difundido pelos humanos. Pré-datava a Rosa-Cruz, o incidente de Salem em 1692 e até mesmo a primeira publicação do Malleus Maleficarum.
Semanas depois Beric retornou com dois outros manuscritos confirmando minha teoria de que a disposição das linhas telúricas havia sido pesadamente alterada, chegando a afetar áreas próximas à Cheltenham e grande parte de Stroud.
Não haviam no local selos druídicos, runas futhark ou qualquer tipo de alfabeto que remetesse a outros planos, nenhuma configuração cabalística, ou qualquer tipo de selo para invocar divindades.
Havia apenas um desenho ininteligível – algo totalmente desprovido de significado e que, se me é permitido presumir, estaria para qualquer sistema mágico de signos como a idioglossia está para a linguágem. Porém, era sofisticado, ou ao menos racional, pois seu traçado fazia com que a energia em fluxo pelas linhas telúricas confluísse, sem pressupor nenhuma conexão com entidades conhecidas. Aparentemente seu objetivo era concentrar a energia sem empurrá-la ou absorvê-la, como é ensinado hoje em dia.

Isso me leva a minha tese: os humanos de hoje são apenas sucessores falhos dos humanos da antiguidade. Cópias incompletas e presunçosas.
Os que conseguiram reconquistar sua autarquia conseguem abrir portas tão grandes que muitos podem enlouquecer – como foi o caso dos três esquizofrenicos retirados e levados ao Hospital – caso não haja o intermédio de uma força maior, ou de um mentor.

No primeiro capítulo de minha tese analisarei o selo e as palavras do ritual que presenciei na minha regressão ao abeto, e também a distorção efetuada nas linhas telúricas.
No segundo capítulo apresentarei os artefatos encontrados na subsequente escavação que foi iniciada pelo Sr. Koganei.
No terceiro e último capítulo, retomarei a tese desenvolvida em meu  livro Caíndo Longe da Árvore, a respeito da genealogia de espécies mágicas para apresentar uma teoria a respeito da ausência de limites para os poderes mágicos dos humanos.

Humanos – pobres humanos, odiados por demônios, apadrinhados por anjos, cobiçados por vampiros – podem ser muito mais do que parecem. Podem ser o que quiserem.

-Excerto do livro Davi e Golias: Um Ensaio Sobre Presunção
Escrito por Andrik Sardu